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Congreso internacional sobre
lenguas neolatinas
en la comunicación especializada |
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El Colegio de México,
México
28 - 29 de noviembre de 2002 |
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A circulação de conhecimento
científico, que faz parte do processo de
produção de conhecimento na sociedade
contemporânea, apresenta-se, de modo geral,
sob dois modos distintos. De um lado a circulação
do conhecimento no interior da chamada comunidade
científica e de outro num percurso que
busca alcançar setores da sociedade, ou
a sociedade como um todo. Neste último
caso estamos no domínio da divulgação
científica.
Estes dois modos de circulação
se apresentam sob formas distintas no decorrer
da História. Atualmente podemos observar
como a relação de cientista a cientista
se faz através de periódicos especializados
impressos, livros, e periódicos por meio
eletrônico, enquanto a divulgação
científica se realiza pela Escola, tal
como tradicionalmente, assim como por outros meios
impressos e eletrônicos. Ou seja, as publicações
científicas, tanto especializadas quanto
de divulgação já estão
diretamente afetadas por um dos aspectos fundamentais
dos procedimentos tecnológicos contemporâneos
(que se costuma chamar de revolução
tecnológica da informação),
o da organização em rede.
A questão da circulação
de conhecimento deve, segundo penso, ser considerada
como elemento do processo de produção
de conhecimento que envolve um conjunto de relações
político-enunciativas entre Estado, cientista,
sociedade e mídia. Para localizar o lugar
do processo de circulação do conhecimento
na prática social de produção
do conhecimento apresento o quadro 1, no anexo
– 1, que sintetiza o jogo de forças
sociais envolvido. Este quadro permite também
compreender a circulação do conhecimento
como um dos elementos da constituição
do sentido da ciência e da tecnologia na
nossa sociedade cuja organização
política é a do estado moderno.
Quero neste ponto frisar, simplesmente, como
o modo de circulação é parte
de uma prática fortemente dirigida por
um aspecto das políticas públicas
(a política científica) que se constitui
por uma tensão constante entre Estado de
um lado e de outro os cientistas, a sociedade
e a mídia, numa relação,
entre estes últimos, que não é
de simples aliança, mas também de
tensão constante. Isto é, o modo
de circulação se relaciona, de algum
modo, com as políticas que buscam definir
as direções ou as condições
das políticas científicas.
Para refletir sobre a questão da circulação
de conhecimento através de periódicos
especializados através de meios eletrônicos
no Brasil, objeto deste texto, partirei de uma
experiência brasileira específica
(como parte de uma experiência latino-americana)
que desenvolveu um programa de publicação
eletrônica de periódicos especializados:
a Plataforma SciELO.
Descreverei, num primeiro momento, aspectos
desta plataforma para depois refletir sobre a
relação de sua configuração
lingüística ligada a uma política
de línguas que é também efeito
de um princípio não formulado de
política científica. |
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1. Plataforma SciELO |
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O primeiro aspecto a registrar é que
ela se apresenta como “modelo de publicação
eletrônica para países em desenvolvimento”,
e também como um modelo para atender “às
necessidades da comunicação científica
nos países em desenvolvimento e particularmente
na América Latina e Caribe”, procurando
contribuir para a “superação
do fenômeno conhecido como ‘ciência
perdida’”. Um outro aspecto importante:
o modelo SciELO se constitui por uma cooperação
de organizações científicas
como a FAPESP (Fundação de Amparo
à Pesquisa do Estado de São Paulo,
instituição modelar de fomento à
pesquisa no Brasil), a BIREME (Centro Latino-americano
e do Caribe de Informação em Ciências
da Saúde) e instituições
brasileiras e de outros países ligadas
à comunicação científica
e editores científicos.
O Endereço da SciELO na Internet é
http://www.scielo.br.
Dada a apresentação sintética
que acabo de fazer não poderia deixar de
registrar algo que põe a relação
que nos ocupa: publicações científicas
em países latino americanos, o que coloca
a questão das línguas destes países
e as línguas dos periódicos. E aqui,
de início, um aspecto importante, SciELO
é a sigla de Scientific Eletronic Library
Online. Além disso, há que se observar
que a página de entrada da plataforma SciELO
é em inglês, com a alternativa de
se buscar as versões em português
e espanhol. Ou seja, o nome desta plataforma é
em inglês e sua língua oficial é
o inglês, embora ela tenha como objetivo
ajudar a circulação de periódicos
da América Latina e Caribe, cujos países
têm como línguas nacionais ou o espanhol
ou o português. Podemos dizer que o Modelo
SciELO, embora não formule esta questão,
afirma que a circulação do conhecimento
deve ser em inglês, o que significa estar
na posição ideológica que
trata, hoje, o inglês, como a língua
da ciência. |
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2. Os Periódicos
da Plataforma |
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O modelo SciELO organiza o modo de acesso
aos seus periódicos por ordem alfabética,
por assunto, e por autor. Quanto aos assuntos
ele inclui: Ciências Agrárias; Ciências
Biológicas; Ciências da Saúde;
Ciências Exatas e da Terra; Ciências
Humanas; Ciências Sociais e Aplicadas; Engenharias;
Lingüística, Letras e Artes. Sem discutir
o sentido desta categorização, vamos
observar alguns aspectos que caracterizam estes
periódicos tomando a) a instituição
que edita o periódico e b) a questão
da língua destes periódicos |
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2.1. Quem edita |
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Os periódicos científicos da
Plataforma SciELO têm como editoras: sociedades
científicas, instituições
universitárias, institutos de pesquisa
e outras instituições. A seguir
(quadro - 2) podemos ver como eles se distribuem,
por área de conhecimento, relativamente
às suas editoras
|
Área |
Total |
Soc. Cient. |
% |
Univers. |
% |
Inst. de pesq. |
% |
Outros |
% |
|
C. Agrárias |
14 |
6 |
42,8 |
4 |
28,5 |
2 |
14,8 |
2 |
14,8 |
|
C. Biológicas |
21 |
12 |
57,1 |
3 |
14,2 |
2 |
9,5 |
4 |
19 |
|
C. Saúde |
32 |
21 |
65,6 |
6 |
18,7 |
3 |
9,3 |
2 |
6,2 |
|
C. Ex. e Terra |
14 |
12 |
85,7 |
1 |
7,1 |
1 |
7,1 |
- |
- |
|
C. Humanas |
17 |
2 |
|
12 |
|
1 |
|
2 |
|
|
C. Sociais e Aplicadas |
3 |
|
|
1 |
33,3 |
1 |
33,3 |
1 |
33,3 |
|
Engenharias |
7 |
6 |
85,7 |
1 |
14,3 |
|
|
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|
|
Lingüística, Letras e Artes |
1 |
1 |
100 |
|
|
|
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Quadro - 2
Encontramos assim três grupos. No primeiro
predominam como editoras as sociedades científicas,
englobando áreas de Ciências Agrárias,
Ciências Biológicas, Ciências
da Saúde, Ciências Exatas e da Terra,
e Engenharias. No segundo grupo predominam como
editoras as instituições universitárias,
compreendendo as áreas de Ciências
Humanas e Lingüística, Letras e Artes.
O terceiro consiste num grupo indefinido, que
inclui a área de Ciências Sociais
e Aplicadas, caracterizando-se como o segundo,
já que nenhum dos três periódicos
é editado por sociedades científicas.
Surgem assim três grandes características:
1. Nenhum periódico científico
da SciELO é editado por uma editora comercial;
2. No domínio das Ciências Exatas
e da Vida, e suas Tecnologias, temos a predominância
de publicação de periódicos
por sociedade científica;
3. No campo das Ciências Humanas e Sociais
predominam periódicos publicados por
instituições universitárias.
A diferença surge ao verificar, por exemplo,
que os periódicos de Ciências Humanas,
num total de 17, correspondem a 15,5% do total
de periódicos da SciELO, num total de 109.
No entanto, 12 destes periódicos são
editados por universidades, ou seja, 42,8% dos
28 títulos editados por estas instituições.
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2.2. As Línguas dos
periódicos |
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Ao examinar a relação dos periódicos
de cada área e a questão da língua,
vemos que segundo os títulos dos periódicos
constantes da Plataforma SciELO, temos a distribuição
mostrada no quadro 3.
| |
Total |
Português |
% |
Inglês |
% |
| Ciências Agrárias |
14 |
12 |
85,5 |
2 |
14,2 |
| Ciências Biológicas
|
21 |
11 |
52,4 |
10 |
47,6 |
| Ciências da Saúde |
32 |
30 |
93,75 |
2 |
6,25 |
| Ciências Exatas
e da Terra |
13 |
7 |
53,9 |
6 |
46,1 |
| Ciências Humanas |
17 |
17 |
100 |
- |
zero |
| Ciências Sociais
Aplicadas |
3 |
3 |
100 |
- |
zero |
| Engenharias |
7 |
3 |
42,9 |
4 |
57,1 |
| Lingüística, Letras e Artes |
1 |
1 |
100 |
- |
zero |
Quadro - 3
Distinguimos neste quadro três grupos
de áreas: 1°) Ciências Biológicas,
Ciências Exatas e da Terra, e Engenharias;
2°). Ciências Agrárias e Ciências
da Saúde; e 3°) Ciências Humanas,
Ciências Sociais e Aplicadas, e Lingüística,
Letras e Artes.
O primeiro grupo se caracteriza por ter praticamente
metade dos periódicos publicados em inglês
e outra metade em português. Note-se o caso
das Engenharias, com mais de 50% de periódicos
em inglês.
O segundo grupo se caracteriza por uma forte
predominância de periódicos em português.
O terceiro grupo se caracteriza por não
ter nenhum periódico em inglês.
Para uma melhor compreensão deste aspecto,
observemos duas destas áreas: Ciências
Humanas (na qual todos os periódicos têm
títulos em português) e Engenharias
(com predominância de títulos em
inglês). As características destas
áreas são mostradas no quadro 4.
| Área |
Total |
Português |
% |
Port. e outras línguas |
% |
Inglês |
% |
Inglês e outras línguas |
% |
| C. Humanas |
17 |
13 |
76,4 |
4 |
23,4 |
- |
- |
- |
- |
| Engenharias |
7 |
1 |
14,2 |
2 |
28,5 |
3 |
42,8 |
1 |
14,2 |
Quadro 4
Observamos que a área de Engenharia,
onde predomina o inglês como língua
dos periódicos, apresenta também
dois periódicos em português, que
admitem outra língua, e entre elas o inglês.
Quanto à área de Ciências
Humanas, que se caracteriza por ter todos os periódicos
com título em português, compreende
13 periódicos em português, compreendendo
também quatro periódicos que aceitam
artigos em outras línguas (em geral espanhol,
francês e inglês). Há ainda
que observar que o grupo de 13 periódicos
em português apresenta uma característica
importante quanto à questão da língua:
destes 13 periódicos, nove exigem resumos
e palavras-chave em português e inglês.
Alguns dos periódicos exigem, além
do mais, que se envie o título do artigo
também em Inglês.
Importa ressaltar que esta área de Ciências
Humanas abrange um conjunto de periódicos
que pratica uma política de multilingüismo.
Esta é também a característica
do periódico da área de Lingüística,
Letras e Artes, a revista DELTA. Segundo sua política
editorial, os trabalhos a serem submetidos à
sua apreciação “devem ser
escritos em português, inglês, francês,
espanhol ou italiano”. Esta política
multilíngüe é também
a posição de outros periódicos
importantes desta área no Brasil ainda
não incorporados ao modelo SciELO: Revista
da ANPOLL, Línguas e Instrumentos Lingüísticos
(publicado pela Editora Pontes), e a recém
fundada Revista da Associação
Brasileira de Lingüística. Diversos
periódicos de importantes departamentos
universitários da área mantêm
a mesma política de línguas. |
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3. Política de Línguas
e Circulação do Conhecimento |
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Deste modo vemos que o domínio das
Ciências Humanas e Sociais (incluindo-se
a Lingüística) coloca uma outra possibilidade
de política de línguas na circulação
do conhecimento científico e tecnológico.
Assim o que temos, no que concerne à política
de línguas para os periódicos especializados,
não é simplesmente o inglês
ou o português: existem duas formas distintas
e opostas de pensar a relação de
uma política de línguas e a questão
da circulação do conhecimento científico
no mundo. De um lado a posição monolingüística,
a favor do inglês, e de outro a do multilingüismo,
que procura incluir as línguas em que se
encontram os interlocutores fundamentais dos brasileiros
naquela área.
O interessante a notar neste corte é
a clareza com que um conjunto de periódicos
do domínio geral das Ciências Humanas
e Sociais (o que categorizamos no grupo 3) adota
uma posição não monolingüística,
contrária à universalização
do inglês, ou de qualquer outra língua).
Por outro lado, nota-se como o domínio
das Ciências Exatas, Ciências da Vida
e suas tecnologias adotam uma posição
em direção ao monolingüismo
em inglês.
Assim, num extremo, o do grupo 1, encontra-se
uma posição que toma a natureza
como objeto universal e ao mesmo tempo assume
uma política monolingüística
(em inglês), contrariamente ao domínio
das Ciências Humanas, que tem como objeto
não a natureza, mas o Homem enquanto ser
histórico, cultural, capaz de agir a partir
das significações produzidas por
suas práticas e não só por
seu aspecto biológico e natural. E neste
caso encontramos a prática de uma política
multilingüística.
É interessante notar que esta divisão
reencontra a outra, descrita quando procuramos
caracterizar os periódicos por suas casas
editoras. O grupo cuja política é
predominantemente monolingüística
é o mesmo em que há predominância
de sociedades científicas como instituições
editoras. Por outro lado o grupo em que se configura
uma política multilingüística
é o que também tem a predominância
de instituições universitárias
como casas editoras dos periódicos.
Ou seja, o espaço de enunciação
(Guimarães, 1997, 2002) da Ciência
e da Tecnologia distribui diferentemente as línguas
para os cientistas segundo o domínio da
ciência considerado. E esta distribuição
procura significar o inglês como a língua
do conhecimento da natureza, do universal. Encontramo-nos
assim diante de uma interessante metaforização
pela qual, para as Ciências Exatas e da
Vida, só há conhecimento em inglês.
Mais uma das escanções do domínio
do saber que quer colocar ideologicamente as Ciências
Humanas e Sociais fora do domínio da ciência.
Por outro lado, o domínio das Ciências
Humanas e Sociais significa a crítica ao
monolingüismo, tanto como crítica
a uma concepção universalista do
objeto de conhecimento quanto a uma política
de línguas que se exprime como uma política
científica.
Para finalizar, gostaria de dizer que considero
que a política não-monolingüística
que periódicos do domínio das Ciências
Humanas e Sociais praticam me parece um interessante
caminho para pensar a questão de uma política
de línguas para a circulação
de Ciência e Tecnologia na América
Latina. Esta política reconhece a necessidade
de circulação universal do conhecimento,
e reconhece também que uma política
de língua para a Ciência não
pode produzir como efeito o sentido de que o conhecimento
se dá sempre numa certa língua.
Isto acaba por colocar fora do sentido da Ciência
conhecimentos produzidos em línguas que
não a “língua da Ciência”.
Relativamente a uma proposta como esta, no entanto,
uma questão de política de línguas,
se impõe. Esta tem de atravessar histórias
distintas no modo de organização
do trabalho intelectual que repercute diretamente
no modo de circulação do conhecimento.
A questão da língua recobre tanto
um tipo de concepção de Ciência
(Ciência é Ciência da Natureza),
quanto a questão da língua dos periódicos,
quanto o aspecto relativo às instituições
que editam os periódicos.
Penso que os países da América
Latina deveriam desenvolver políticas de
língua que ampliassem no continente o espaço
de enunciação destas línguas
de Estado. Ou seja, é preciso que o Brasil
desenvolva juntamente com os países de
língua espanhola uma política de
línguas que amplie a presença do
espanhol no Brasil; e preciso também que
os países de língua espanhola implantem
uma política correspondente em prol do
aumento do espaço do português nos
países de língua espanhola. Uma
política como esta deveria articular-se
com a ampliação dos espaços
enunciativos de línguas latinas no continente,
como uma forma de aliança política
que declarasse o nosso espaço como claramente
multilíngüe. Esta mudança no
espaço de enunciação corresponderá,
na prática, à criação
de uma outra mentalidade sobre as línguas
no continente mudando assim a relação
à presença do inglês como
parte deste espaço enunciativo. Deste modo
a questão das línguas, no decorrer
de algum tempo, deixaria de se colocar estritamente
como uma questão relativamente à
língua inglesa, criando condições
para que a comunidade científica não
sentisse a necessidade de manifestar um monolingüismo
que, de resto, não combina com a formação
própria aos cientistas e intelectuais de
modo geral.
ANEXO 1
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Bibliografia |
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Castells, Manuel ( ) Sociedade em Rede
Guimarães, Eduardo (1997)
Guimarães, Eduardo (2002)

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