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Falar e escrever ciência em português

Joaquim José Moura Ramos - Instituto Superior Técnico
[cv]

 

A atribuição do prémio anual de tradução científica e técnica (União Latina/FCT) e a organização deste seminário sobre tradução científica e técnica em língua portuguesa, são iniciativas louváveis pois vale a pena motivar e dar incentivo à tradução para português de textos científicos. Falar e escrever ciência em português fortalece a nossa língua e estimula a comunicação. A língua inglesa surge hoje incontestavelmente como língua dominante para a comunicação universal na área da ciência e da tecnologia, e não só. Trata-se de uma ocorrência feliz que em muito facilita a comunicação entre culturas e entre investigadores. E não existe contradição em pensar, por outro lado, que, sendo a língua materna veículo de comunicação de eleição, importa valorizar o seu uso para comunicarmos em todas as áreas da cultura incluindo a científica.

Não tenho qualquer formação técnica em tradução e não sou especialista em teoria da tradução. Estou aqui como docente universitário na área da ciência, da Química mais concretamente, que em 1994 constituiu e coordenou uma equipa de tradutores para realizar a versão portuguesa de um volumoso livro de introdução à Química. A edição portuguesa ganhou, no ano de 1995, o prémio da União Latina/ FCT. Aquilo que tenho para vos comunicar não é mais que a minha experiência enquanto tradutor não especialista em tradução.

Apesar de já há muitos anos ter contacto com a prática da tradução, foi a leitura relativamente recente de George Steiner, em particular do seu trabalho "Depois de Babel" [1] publicado em 1975 e posteriormente reeditado e aumentado, que me acordou para a riqueza e complexidade da teoria da tradução, e que me transmitiu a noção de que a tradução tem muito que se lhe diga.

 

A tradução não é uma condenação

A tradução é muitas vez olhada como uma actividade menor, do ponto de vista intelectual. Segundo uma hipótese plausível, isso resulta de o multilinguismo ser considerado um tropeço. O capítulo XI do livro do Genesis conta a história de Babel. Muitas mitologias contam, cada uma à sua maneira, esta fábula: devido a erro ou a culpa humana, a língua única original foi destruída e a ela se sucederam milhares de idiomas diferentes.

A Torre de Babel é mencionada no livro bíblico do Genesis como uma torre enorme construída pelos descendentes de Noé, com a finalidade de atingir os céus. Irado com o orgulho e a ousadia humana, Deus teria feito com que os trabalhadores da obra começassem a falar idiomas diferentes, de modo que não se pudessem entender. Assim acabaram por abandonar a construção. É neste episódio que, segundo a Bíblia, se situa a origem dos idiomas da humanidade.

O multilinguismo é, segundo esta leitura, um desastre fatídico, um castigo que se abateu sobre os mortais. A origem das línguas corresponde, neste contexto, a uma punição, e a tradução surge como um fardo que temos que carregar em consequência dessa punição. Contudo, há quem sustente com base na análise do texto do Genesis, que a descrição nele contida é puramente factual, sem qualquer tonalidade desastrosa. Como em todos os mitos iniciais que contam processos irreversíveis, estaríamos assim perante a constatação sem condenação de uma separação original. No início do Genesis temos a separação dos elementos cósmicos que permitiu que a ordem emergisse a partir do caos. Depois temos a perda da inocência e a expulsão do Paraíso que exprime o acesso à idade adulta e responsável. O mito de Babel é o culminar desta história de separação transposta para o exercício da linguagem. É a constatação daquilo que na realidade somos e da forma como existimos: dispersos, confusos, chamados, mas não condenados, à tradução.

Ao longo da sua obra George Steiner sustenta, com base em metodologias de análise que relevam da antropologia estrutural e da psicanálise, que a leitura catastrófica do mito de Babel deturpa o seu significado original e autêntico. Em vez de catástrofe punitiva, a multiplicidade das línguas é dádiva feliz, benção incomensurável. Para ele, cada língua humana constitui uma construção (ou percepção) integral do mundo. Aprender uma nova língua é aceder a um novo mundo. Numa perspectiva darwineana Babel pode ser vista como a expressão de uma grande vantagem evolutiva e não como limitação selectiva. A tradução não é uma condenação mas sim uma realidade, útil, necessária, fecunda.

 

Da utilidade e necessidade da tradução

Outro aspecto, especulativo mas interessante, no contexto da teoria da tradução é a discussão em torno da legitimidade da tradução. Será a tradução uma coisa possível? Desejosos de traduzir para latim os textos gregos, os romanos já formulavam questões como esta. Grande desafio devia ser para eles a tradução da obra dos antigos (como os romanos chamavam aos gregos), da poesia de Homero, das comédias de Aristófanes, das tragédias de Sófocles e de Eurípedes. Muitos tradutores e pensadores da língua interrogaram-se sobre  a legitimidade da tradução e procuraram dar respostas. Assim aconteceu com Dante, Proust, Walter Benjamin, Roman Jakobson, Nabokov... Entre as posições mais extremadas abre-se um leque de respostas que cobrem um largo espectro de nuances múltiplas. Uns, sobretudo poetas e escritores, negam a própria possibilidade de qualquer tradução responsável ou séria: traduzir é trair. A diversidade das línguas exprime uma heterogeneidade radical: as línguas são radicalmente diferentes. Daí que exista quem entenda que a tradução é teoricamente impossível, que as línguas são apriori intraduzíveis. Aliás, o significado das palavras nunca se sobrepõe exactamente quando passamos de uma língua para a outra.

Outros proclamam que a tradução pode resultar tão bem que a obra traduzida se pode tornar melhor que a original. O que é verdade é que a tradução é uma realidade: ela existe. Há quem pense que se assim é, tal resulta de haver um fundo comum às línguas que possibilita que ela exista. Haverá invariantes linguísticos, regras gerais de organização que transcendem a diversidade das línguas e a infinita riqueza das frases? Podemos considerar que, sendo diferentes, as línguas têm semelhanças, aspectos comuns. As línguas assemelham-se na medida em que é sempre possível traduzir de forma mais ou menos fiel um texto de uma língua noutra. Isto convida à pesquisa dos "invariantes" ou das leis universais da linguagem. Assim sendo, esse fundo comum deve poder ser: a) redescoberto para reencontrarmos a língua comum original (aquela que se perdeu em Babel), ou então b) reconstruído logicamente, o que conduzirá à língua universal (a utopia de Leibnitz). Quer seja original ou universal, essa língua deve poder ser revelada nos seus diferentes registos (fonológicos, lexicais, sintácticos, ...).

A alternativa é pois:

1 – ou a diversidade das línguas é radical, e nesse caso a tradução é teórica e legitimamente impossível,

2 – ou a tradução é possível, mas há que determinar a legitimidade dessa possibilidade (língua original ou língua universal).

Esta discussão envolve um grande tecnicismo. Contudo, o balanço sumário feito por muitos especialistas é o de que esta batalha que opõe a impossibilidade da tradução ao formalismo que funda a tradução numa estrutura universal a ser demonstrada tem algo de inútil [2]. A dicotomia intraduzível/traduzível é uma alternativa de natureza especulativa e estéril, que pouco enriquece a teoria e a prática da tradução. O que é facto é que a tradução existe e é vivida como uma praxis quotidiana sobre cuja legitimidade nos não interrogamos. O que importa é abrir os horizontes da tradução, perspectivando os seus problemas de uma forma prática e pragmática.

A tradução é útil e é necessária. Para viajar, para negociar, há que ter mensageiros que falem a língua dos outros. Ficamos satisfeitos por encontrar traduções se quisermos evitar aprender as línguas estrangeiras. Mas, para além da necessidade e da utilidade, há algo de bem mais profundo que é a atracção pela tradução, o desejo de traduzir. É que traduzir configura e educa a própria língua, amplia-lhe o seu horizonte, permite descobrir na língua recursos adormecidos. O desejo de traduzir está manifesto numa vasta elite de tradutores,  que inclui Lutero (tradutor da Bíblia) e Walter Benjamin, passando por Goethe, Novalis, Erasmo, Proust e muitos outros. É porque existe esse desejo de traduzir que os grandes textos da nossa cultura existem em retraduções incessantemente efectuadas. Acrescente-se que não há critério absoluto de boa tradução. É sempre possível criticar uma tradução, mas a única maneira consequente de o fazer é propor uma outra, pressuposta melhor ou diferente.

 

A tradução de textos científicos

A tradução científica é o aspecto particular da tradução que neste contexto nos interessa discutir. Ela levanta problemas específicos no contexto geral da problemática da tradução, e esses problemas específicos resultam por um lado do posicionamento da ciência e da tecnologia no universo da cultura, e por outro lado da enorme especialização e divisão (ou compartimentação) do saber que reina na área da ciência e da tecnologia. O papel da ciência e da actividade científica nas sociedades modernas tem vindo a crescer aceleradamente em importância. Daí que se dê ao ensino das ciências um grande relevo educacional, e que a comunicação social atribua à ciência e à tecnologia uma atenção crescente. A ciência toca cada vez mais os cidadãos, a ciência é uma parte cada vez mais importante das nossas vidas e torna-se uma parcela cada vez mais influente da cultura. Nestas circunstâncias, parece ser fundamental que se fale e escreva sobre ciência em português. Por um lado porque promover a cultura científica do cidadão é objectivo que vale a pena perseguir. Por outro lado porque, ao divulgar e ensinar ciência em português, acrescentamos à língua instrumentos e recursos (lexicais e sintácticos) importantes para o seu enriquecimento e  revitalização. Para além disso, é preciso saber usar a língua materna para comunicar na área da ciência se quisermos ser cientificamente cultos. A solidez e profundidade da nossa cultura científica depende em boa parte da nossa capacidade de usar a língua materna na nossa actividade e na nossa comunicação nesta área. É por isso importante traduzir para português textos científicos, tanto para divulgação científica como para o ensino.

Com o grande desenvolvimento da ciência ao longo de todo o século XX o discurso da ciência tornou-se mais hermético, e a actividade científica passou a ser uma prática mais especializada, menos abrangente, menos dialogante. A procura da interdisciplinaridade é um exercício difícil, nem sempre bem sucedido. Ao grande desenvolvimento da ciência e à enorme expansão do sistema científico, a que corresponde um aumento do poder da ciência, associou-se um processo de isolamento da ciência e da tecnologia no universo da cultura. Este processo está bem descrito e caracterizado, e o nosso apreço pela ciência não é razão para tentarmos escamoteá-lo. Ao mesmo tempo, a intervenção da ciência estende-se a novos domínios, as áreas científicas alargam-se, o saber divide-se cada vez mais.

Por tudo isto, nas áreas científicas e técnicas um bom tradutor terá que ser necessariamente alguém com sólida formação científica e técnica. Isto porque, como se disse, a ciência e a tecnologia são uma área muito específica com o seu léxico próprio. Para além de que existem palavras cujo sentido num contexto científico é diferente daquele que têm na linguagem quotidiana, como por exemplo fragilidade, calor, tenacidade. Esta ocorrência é frequente, e gera dificuldades de tradução que só um especialista tem condições para detectar e superar. A solução que consiste em fazer rever por um especialista uma tradução feita por um não especialista, nem sempre resulta. É normalmente mais difícil e trabalhoso corrigir uma tradução coxa do que fazer a tradução de raiz.

Um tradutor de textos científicos, sejam eles de investigação, de ensino ou de divulgação científica, deve ter formação científica, pelo menos ao nível de uma licenciatura com forte conteúdo na área científica respectiva. Mas isso não chega. Pode por exemplo ser de grande utilidade para o tradutor científico ter uma inserção no meio científico e tecnológico que lhe permita saber a quem recorrer em caso de dificuldades imprevistas. Isto aconselha que o tradutor seja ao mesmo tempo um investigador. Para além disso, o tradutor científico deverá ter, como qualquer tradutor, um conhecimento aprofundado das línguas de partida e de destino da tradução. Um texto científico não é, necessariamente e desejavelmente, um texto seco e descolorido. Pode haver no texto original colorações e subtilezas, referências culturais que importa preservar no texto traduzido. Por outro lado, o resultado final de uma tradução terá que ser um texto escorreito, tanto do ponto de vista gramatical como científico, e deve também ser agradável de ler. Neste sentido, será uma mais-valia para o tradutor científico ter alguma formação em tradução. O texto traduzido deve poder ler-se de forma fluida, sem atropelos. Dito por outras palavras, o texto traduzido deve esconder que foi traduzido, deve disfarçar a sua natureza. O trabalho do bom tradutor deve passar despercebido pois quanto mais grosseiros são os erros da tradução maior é a visibilidade do tradutor. Daí que seja bom sinal quando o tradutor se torna invisível face ao leitor. Isto pode constituir critério de qualidade da tradução e, ao mesmo tempo, revela dimensão de modéstia que é inerente à actividade do tradutor.

 

[1] George Steiner, After Babel: Aspects of Language and Translation, Oxford University Press, Oxford, 1975 (3ª edição 1998). Edição em língua portuguesa: Depois de Babel, aspectos da linguagem e tradução, trad. de Miguel Serras Pereira, Relógio d’Água, Lisboa, 2002.

[2] Estes comentários inspiram-se num interessante e relativamente recente texto de Paul Ricoeur: Sur la traduction, Bayard, Paris, 2004. Edição em língua portuguesa: Sobre a tradução, trad. de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Livros Cotovia, Lisboa, 2005.

 

Joaquim J. Moura Ramos (Novembro de 2006)
E-mail: mouraramos@ist.utl.pt

Professor Associado da Universidade Técnica de Lisboa, Instituto Superior Técnico (IST), investigador do Centro de Química-Física Molecular.

Estatuto no Centro de Química-Física Molecular

· Investigador no grupo "Espectroscopia de Superfícies e Dinâmica Molecular em Sólidos"
· Responsável pelo programa de investigação sobre relaxações lentas em sólidos desordenados

Ensino no Departamento de Engenharia Química e Biológica

· Química Geral
· Termodinâmica Química
· Química-Física
· Química da Atmosfera
· Introdução à Química-Física

Graus

· Licenciatura em Engenharia Químico-Industrial, IST, 1971
· Doutoramento (PhD) em Ciências Químicas, Université Libre de Bruxelles, 1977

Cargos

· Assistente, IST, 1971/72 e 1977/78
· Professor Auxiliar, IST, 1978/79
· Professor Associado, IST, 1979 –

Interesses científicos actuais

· Propriedades Dieléctricas de Polímeros, Vidros Moleculares e Cristais Líquidos
· Processos de Relaxação Locais e Cooperativos em Vidros e Cristais
· Mobilidade Molecular em Materiais Vitrosos com Interesse Farmacêutico

Publicações científicas

95 artigos em jornais internacionais com avaliação;
13 artigos noutras publicações com avaliação;
50 comunicações a congressos científicos.

Outras publicações
Sinos do Universo ‑ a evolução antes da vida, em colaboração com Isabel Barreno e Rui Perdigão, Edições Difel, Lisboa, 1984.
- H. Maia, J. J. Moura Ramos eds., A evolução cósmica e a origem da vida, Livraria Almedina, Coimbra, 1985.
- A. R. Dias, J. J. Moura Ramos eds., Química e Sociedade: a presença da química na actividade humana, Livraria Escolar Editora e S.P.Q., Lisboa, vol.1 (1990) e vol.2 (1992).
Algumas considerações sobre as simetrias e dissimetrias nas ciências e na natureza, Bol. Soc. Port. Quím. nº 44/45, Junho/Setembro de 1991.
Os cheiros, o sexo e a química, inserido em "Química e Sociedade: a presença da química na actividade humana", vol.2, Livraria Escolar Editora e S.P.Q., Lisboa, 1992.

 

 

 

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