Apresentação FCT | Apresentação União Latina | Programa | Outras comunicações | Lista de participantes
 
A tradução na sociedade do conhecimento
ou
Tradução: uma tecnologia humana de ponta
ou
Ciência e tradução

Diana Santos, SINTEF ICT
[cv]

 

Este artigo tenta traduzir a minha palestra convidada no IX Seminário de Tradução Técnica e Científica a 13 de Novembro de 2006 (Santos, 2006c) num artigo de opinião sobre os mesmos temas, mas que, como convém às normas da boa tradução e adaptação, com outros recursos e armas. Idealmente, terá o "mesmo" resultado para os leitores que terá tido para a audiência presente na sala. Pelo menos tem os mesmos objectivos subjacentes:

O de propor a actividade de tradução como uma actividade criativa essencial para a ciência (e cultura), negando, consequentemente, as dicotomias entre criador e tradutor; cientista e tradutor; texto técnico e literário; artista e tradutor; e, finalmente, tradução humana e automática.

Não pense o leitor, contudo, que este artigo tem um teor essencialmente negativo. Apresso-me a indicar que as duas mensagens principais são a analogia entre a tradução e as pontes; e a mensagem de que, como comunicadores e seres humanos, somos todos tradutores. [1]

 

Para uma definição de tradução

É praticamente impossível "congelar" os conceitos com que operamos na língua, visto que a riqueza da comunicação humana é precisamente permitir que cada falante tenha o seu próprio modelo mental de um conceito e contudo possa partilhar algo com os outros. Mesmo em ciência (e veja-se o volume de trabalhos publicados em filosofia da ciência para compreender a dificuldade de definir a própria ciência), os conceitos evoluem (interfalantes e dentro da própria evolução mental de cada falante) e a compreensão de um conceito ou ideia depende de muitos factores, alguns deles individuais.

Isso não impede que, dentro de cada contexto comunicativo, quem comunica deva exprimir com rigor aquilo que entende por palavras de domínio público, de certa forma iluminando e enriquecendo a visão individual de cada ouvinte. Por isso não me parece ser em vão apresentar aqui a definição de tradução que motiva e enquadra o que vou dizer a seguir (quanto mais sabemos, mais compreendemos). É importante salientar que esta definição, contudo, não é feita para contrastar ou substituir outras definições, mas apenas para garantir uma base mínima de compreensão mútua.

A própria definição de definição é algo muito complicado, que aqui vou simplificar, assumindo que basta apresentar "os traços mais importantes e imprescindíveis" do que eu chamo tradução. E que são: 1) mudança de meio de expressão, 2) que pressupõe conhecimento (quase) perfeito de ambos os meios, e 3) conhecimento de como passar de um para outro (Lab, 1990, Santos, 1999a, 2004).

Embora esta definição não impeça por exemplo a passagem de "passagem de modas" [2] para "música", vou assumir no resto do artigo que pelo menos um dos meios de expressão tem a ver com a língua, veículo fundamental de cultura e comunicação. Exemplos de tradução podem assim referir-se a (e vice-versa):

tradução de um texto de uma língua para outra (ou de um dialecto/sociolecto para outro)

tradução de um texto para um filme –a chamada adaptação, veja-se McDougal (1985), Aycock e Schoenecke (1988), Chatman (1990), Reynolds (1993), Cartmell e Whelehan (1999), Stam e Raengo (2005), etc.

tradução de uma entrevista/conversa para um texto

tradução de um registo para outro ("reader's digest")

sumarização (Rino e Pardo, 2007)

tradução de um texto para um jogo

tradução de banda desenhada para um filme

tradução de um texto de especialistas para um texto de divulgação

tradução de texto para hipertexto

tradução de uma peça para um texto

tradução de um texto para uma peça radiofónica

tradução de um livro para uma peça musical

tradução de uma ópera para um filme, etc. [3]

 

Características fundamentais da tradução

A tradução é uma actividade que constrói qualquer coisa, também chamada uma tradução. Ou seja, é, ao mesmo tempo, processo e resultado. É importante chamar a atenção para uma coisa óbvia, que no entanto nem sempre é sublinhada: por um lado, uma tradução é um processo direccional de criação. Por outro, o resultado é uma relação, bidireccional, mas nunca unívoca, entre dois lados/textos/objectos comunicativos.

Aqui entra a metáfora da ponte, ou da construção de pontes, a qual usei extensivamente na palestra, com dois objectivos: o de chamar a atenção entre as relações entre a teoria e a prática (um objectivo essencialmente didáctico que não repetirei aqui), e o de chamar a atenção para o acto de pôr em relação duas realidades, muito maiores do que a própria ponte. Em pontes "literais" as duas margens podem ser duas cidades, até dois países. No caso prototípico da tradução de um livro (científico ou literário), as duas entidades que são ligadas correspondem ao livro original e a sua relação com a cultura original por um lado, e ao livro traduzido e a sua relação com a cultura de destino, por outro. Como todos sabem, por vezes o lado traduzido é "maior" do que o original (obras há mais conhecidas no estrangeiro que na sociedade original em que foram concebidos, filmes maravilhosos construídos a partir de livros obscuros, etc.).

Como em todas as metáforas, nem todas as propriedades das pontes ou do que é ligado por estas podem ter paralelo na tradução (ou vice versa), mas a metáfora deve estimular a compreensão do fenómeno abstracto em relação ao qual está a ser invocada. Veja-se Lakoff e Johnson (1980) a este propósito para uma explicação da metáfora como propriedade constitutiva e fundamental da língua – de toda a língua, não especialmente da criação literária.

As pontes caem. – As traduções não caem, mas podem ser um falhanço total...

As pontes podem ser reforçadas. – Em geral, as traduções são efectuadas novamente, ou seja, construídas de novo (nova tradução, não "tradução revista e aumentada", novo filme, não "filme melhorado").

A principal diferença, a meu ver, é a seguinte: As pontes pressupõem já alguma coisa do lado de lá, as traduções podem por vezes criá-lo: é o caso da introdução de uma nova área científica, ou teoria, ou outra cultura, ou da criação de um novo mundo mágico (como o dos feiticeiros que nos torna muggles [4]).

Por outro lado, a maior parte das pontes são consideradas simétricas ao serem concebidas (embora possam ligar margens de diferente estatuto, ou consagrarem diferentes regras de navegação: sentido único, prioridade numa direcção, meios de transporte diferentes). Pelo contrário e como já referido, a actividade de tradução é eminentemente direccional: parte-se de um lado para chegar a outro, e embora possa estabelecer ligações importantes no sentido oposto (tais como resultados científicos na língua de destino que serão traduzidos depois na ordem inversa [5], ou a vontade de ler o original após o filme ou a tradução [6]), é feita geralmente com um objectivo direccional (o de passar da fonte para o alvo).

Finalmente, a diferença mais palpável é que não existe existência física da tradução: a ponte é totalmente virtual, as pessoas apenas têm acesso físico às margens.

 

Ciência e tradução

A questão do e é interessante pelo facto de ser a palavra mais difícil de traduzir e explicar, porque é a que pode significar mais coisas, visto que deixa vaga exactamente a relação que pretende estabelecer. Riqueza do e, claro, e não falha. Noutros textos tenho tentado chamar a atenção para o que considero as propriedades constitutivas da língua (ou linguagem natural) (Santos, 2006a) com especial ênfase para a vagueza (Santos, 1998a).

A relação expressa pelo e – e não vou ser exaustiva – poderia significar: a tradução da ciência, a ciência da tradução, as relações entre ciência e tradução, a união entre ciência e tradução, a sequência temporal: primeiro ciência, depois tradução, a sequência lógica: primeiro ciência, depois tradução, etc. etc. etc. Neste artigo, resolvi escolher a seguinte ligação para o significado do e: Preconceitos que se aplicam igualmente a ambas as "actividades".

Porque de facto, uma das coisas que a ciência e a tradução partilham, na sua imagem para não especialistas, é a sua identificação com o "chato", não criativo, por oposição às artes, criativas e interessantes por excelência. Este é um preconceito que me parece completamente descabido, em todas as vertentes e em todas as comparações parciais que pressupõe: a de autor por oposição a tradutor, a de cientista por oposição a artista, a de texto técnico por oposição a texto literário. No que se segue, vou tentar portanto rebater cada uma destas dicotomias, começando por desmistificar a oposição entre tradução automática e humana.

 

Tradução humana e automática

Uma questão que me parece importante salientar (e que espero que seja sublinhada em todos os cursos de formação de tradutores) é que não há uma dicotomia essencial entre tradução humana e automática (os nomes reflectem apenas quem efectua na prática a tradução).

A tradução é uma actividade essencialmente humana e só faz sentido para seres humanos. Ou seja, ao contrário de actividades industriais ou no âmbito da guerra (ou paz) em que faz todo o sentido criarmos máquinas para, por exemplo, detectar minas ou atarraxar parafusos numa linha de montagem, substituindo o Homem, a tradução tem como destinatário imediato, causa e consequência a existência de outro meio de expressão humano (em geral outra língua ou cultura) que só interessa a seres humanos: ou seja, a tradução faz-se para comunicar com seres humanos, não é possível imaginar que os seres humanos possam ser substituídos por uma máquina sem que tenham um papel preponderante. Daí que em inteligência artificial (IA) o paradigma original de substituir o humano tenha já há algum tempo sido substituído pelo apoio inteligente (AI), cujo objectivo é facilitar o trabalho intelectual de um (ou mais) seres humanos e não substituí-los, tentando todavia libertá-los de tarefas repetitivas e aproveitando aquilo que já foi feito.

Assim têm surgido os vários sistemas de apoio à tradução, apoio à redacção, apoio à construção e consulta de terminologia (monolingue ou bilingue), apoio à cooperação entre tradutores, apoio à revisão de traduções e à comparação entre várias versões, etc. etc. Veja-se entre outros Macklovitch (1996), Santos (1999b), Isabelle et al. (1993), Bey et al. (2005) e Simões et al. (2004a). Por exemplo, Bey et al. (2006) desenvolveram um ambiente de tradução cooperativo partilhado pelos tradutores, enquanto Simões et al. (2004b) propuseram e implementaram uma sistema de partilha de memórias de tradução entre vários tradutores, mas cujas memórias não perdem a sua individualidade.

Outra vertente é a tecnologia de tradução automática baseada em exemplos, em que o objectivo é aproveitar grandes quantidades de (boas) traduções já feitas para propor traduções de textos nunca antes traduzidos. Embora tal não seja muitas vezes suficientemente salientado, a ideia é fazer os computadores usar a prática da tradução humana como exemplo, em vez de tentar implementar, por exemplo, uma teoria sobre as diferenças entre as duas línguas (a vários níveis) para criar regras de tradução que tentem modelar explicitamente o que o tradutor faz automaticamente, e que é o paradigma da tradução baseada em regras. Obviamente, ambos os paradigmas têm dificuldades específicas e necessitam de mais investigação para resolver os problemas (diferentes) que se fazem sentir (Thurmair, 2005). Outro paradigma, não muito diferente da tradução baseada em exemplos, mas mais abstracto, é o da chamada tradução estatística, em que a partir dos exemplos se cria um modelo estatístico (Simões, 2006, Santos, 2006b), modelo esse que é aplicado a novos textos.

Outra área em que a tecnologia do processamento de linguagem natural tem sido aplicada à tradução é a avaliação de tradução: mais uma vez, algo que apenas uma pessoa (ou conjunto de pessoas) pode de facto ajuízar, mas que é possível ajudar significativamente através de meios informáticos que facilitam, ajudam e apoiam este processo (Popescu-Bellis, 2003, Santos et al., 2004). Veja-se Sarmento et al. (2007) para uma panorâmica introdutória de avaliação de tradução.

 

Tradução literária e científica

Vou rebater esta dicotomia, não por desconhecer que existem técnicas e teorias directamente aplicadas a cada um destes ramos da tradução, mas por considerar que a separação foi longe de mais e que os seus defensores têm feudos universitários a defender, mais do que argumentos linguísticos ou sociológicos. Qualquer distinção pode começar por ser muito útil e, mais tarde, tornar-se redutora ou extremada: é o que me parece que acontece com a presente, no sentido de separar duas actividades que têm mais em comum do que se quer fazer crer.

O meu argumento é sobretudo contra a "objectividade" e secura do texto científico, considerado aparentemente por muitos como passível de tradução literal. Leia-se Maia (2005): The advance of technology, in the form of machine assisted translation and machine translation,  [...] increasingly forces the language of both the original and the translation to be as standardized and as literal as possible [7]. Ora eu discordo veementemente de tal visão dos textos científicos – os bons textos dentre eles, pelo menos, que são os únicos que merecem ser traduzidos.

Apresento três caminhos para refutar esta dicotomia:

1. O primeiro apoia-se na já mencionada demonstração, por Lakoff e Johnson (1980), de que a língua é essencialmente metafórica (embora baseada em metáforas diferentes em línguas ou culturas diferentes). Estes linguistas mostraram que a criatividade não é apanágio do texto literário, é preciso igualmente usá-la para transmitir novos conceitos e novas formas de ver ou novas teorias. Para a traduzir, é assim precisa uma dupla criatividade (e compreensão dos vários sistemas metafóricos envolvidos). Vejam-se alguns exemplos:

O primeiro é o seguinte extracto de europês, por muitos considerada a língua menos interessante do mundo: Accordingly, platforms must have the freedom to determine the most appropriate organisational structure. A "one-size-fits-all" approach is not appropriate [8]. (CEC, 2005) Obviamente, a metáfora do vestuário está aqui a ser usada num domínio bem diferente.

Outro caso é o do célebre artigo de Woods (1975) What's in a link?, um artigo fundamental na área da semântica computacional, cujo título remete para um dos mais conhecidos versos de Romeu e Julieta, mas que não é identificável como tal pela maior parte da audiência do artigo cuja língua materna não é o inglês.

Em terceiro lugar veja-se a definição de braided evaluation em Crouch et al. (1995:35): em que o mais importante para o esclarecimento deste novo conceito é precisamente o próprio sentido de braided em inglês ("entrançada") e não a definição apresentada, a saber: A braided evaluation structure is a candidate meeting the requirements set out above. The braid model starts from the observation... [9]

Finalmente, a minha opinião sobre a tradução para português do título do livro Empirical linguistics (Sampson, 2001) é a de que deveria ser chamado Linguística experimental, e não empírica (devido à má conotação do adjectivo empírico, filosoficamente errada [10], e à boa conotação da física experimental como disciplina, por exemplo) [11].

Quem pode dizer, após estes exemplos entre milhentos, que os escritores técnicos e científicos não recorrem, por vezes nem sendo tal opção totalmente consciente, a conotações, alusões intertextuais (de outras áreas e da literatura) e a metáforas que aumentam a clareza da mensagem que querem transmitir?

2. O segundo invoca a compreensão, já generalizada, de que a ciência não é um amontoado de verdades independente dos cientistas e da sua subjectividade, percurso humano e enquadramento social e político, como o salientam Gahegan e Pike (2006) num texto sobre ciência da informação geográfica. Com efeito, estes autores afirmam: the social critiques of [...] science takes issue with the often-assumed objectivity of data and methods, pointing out that such [scientific] resources are in fact value-laden artifacts that perhaps say as much about their creators as they do about the world [12] (p. 728). E mais: the concepts we create to help us understand the world say as much about us as they do about the world... they are not static, they shift in response to the development of our own personal understanding [13] (p. 730).

Ou seja, traduzir o texto científico não é traduzir algo objectivo relativo a conceitos imutáveis e independentes do cientista e da cultura em que este se insere. Pelo contrário, fazer ciência e traduzi-la engloba-se no contexto mais vasto da actividade intelectual do Homem, que não se compartimenta entre esferas "denotativas" e esferas "emocionais", entre ciência e estética ou emoção.

3. O terceiro argumento contra a distinção entre tradução literária e científica baseia-se no facto de a língua, o meio com que somos dotados para fazer ciência, para comunicar, para pensar e para divergir [14], não tem compartimentos estanques para linguagem técnica e linguagem geral. Pelo contrário, a esmagadora maioria dos termos transita constantemente entre os dois (ou muitos mais) registos (e tal se passa, aliás, não só com os termos mas também com a gramática e a estilística). Veja-se, a esse propósito, os comentários de Agnès Feltkamp e de Gutiérrez Rodilla (neste volume).

Vários factores (não esquecer que a língua é a mais antiga forma de representação do conhecimento humano, aperfeiçoada e em constante evolução e adaptação ao longo dos milhões de anos da nossa presença na Terra) concorrem para essa maleabilidade: por um lado, para comunicar é preciso pegar em algo já conhecido e juntar-lhe algo de novo [15]: assim um novo conceito é mais facilmente compreensível se se pegar numa palavra já com um significado conhecido (mas vago) e o especializar e fixar num contexto técnico-científico; por outro lado, ao divulgar a ciência, muitas vezes acontece que os conceitos bem definidos são apropriados pela linguagem comum, que os usa e aplica através de extensões e simplificações que os tornam populares mas já não rigorosos. Estes dois processos ocorrem constantemente (assim como o processo paralelo de criação de neologismos e/ou de apropriação de palavras de outras línguas). Veja-se deslocalização, inicializar, ou jeans vs. calças de ganga.

Outro fenómeno, igualmente interessante e que demonstra a interligação ou homogeneidade da língua como um todo, é o uso de linguagem técnica por comunidades especializadas, para referir ou descrever (criativamente) fenómenos do dia a dia, tal como posso documentar, dos meus tempos do Técnico, o uso natural entre os alunos de Electrotecnia de entrar em ressonância como sinónimo de apaixonar-se, sentir grande empatia, ou de temos um problema de impedância para descrever pessoas com quem a relação era má. Penso que qualquer comunidade especializada desenvolve naturalmente este tipo de comunicação, que serve ao mesmo tempo para encorajar a pertença a um grupo e para consolidar (através da analogia) conceitos abstractos.

Ao nível da sociedade mais geral, e no caso de tecnologias com grande divulgação, é possível mesmo ver a adopção de termos ou metáforas globais provindas por exemplo da informática ou do ciclismo (pelotão da frente).

Outros pontos de contacto entre a tradução científica e a de uma obra literária são os seguintes: [16]

4. Existe uma relação, muito importante, entre o valor pedagógico de um texto e a sua tradução: não só isso é universalmente reconhecido para a ciência, o que leva a que os textos didácticos e pedagógicos sejam dos primeiros e primordiais a serem traduzidos, devido à absoluta necessidade de os alunos terem uma cultura científica materna [17], mas também tem sido frequentemente afirmado que a tradução literária é feita muitas vezes precisamente devido à importância pedagógica de um dado texto e à vontade de o transmitir a novas culturas. Um testemunho desta realidade é por exemplo Santos (1976).

5. Por outro lado, a prática da adaptação do texto literário está muitas vezes imbuída daquilo que noutras esferas se considera como relevante para o texto científico: a importância do sentido e a absoluta secundarização da forma: com efeito, Kilpatrick (2005: 84) afirma, em relação à obra O último moicano de Fenimore Cooper, que: As Barker and Sabin (1995:9) have noted, "freedom of interpretation" makes a source novel a "hollow vessel; everyone knows the title phrase, but it doesn't seem to tie you down. But whenever a conscious effort at reinterpretation is made, something seeps from the vessel into the contents, to color and flavor them". That which seeps from the vessel is the American myth, the way white Americans see themselves. Understandably, the view is a bit different each time the story is told, each time the carcass is reinvented and made to move again [18]. Para concretizar, estes comentários têm como pano de fundo três adaptações cinematográficas distintas em que as histórias de amor envolvidas são todas diferentes (e nenhuma conformando com o enredo do livro).

 

Tradução e criação

A última dicotomia que eu gostava de atacar é a que opõe o tradutor ao criador, o primeiro, com menos dotes criativos, fazendo um serviço ao segundo, desde já limitado pelo ideal inatingível de ser "igual" ao original. É certo que muitas traduções foram feitas com este modelo conceptual, autoflagelador para o tradutor e evidentemente resultando em algo que nunca poderá chegar ao texto original (uma profecia que se cumpre automaticamente!). Tal modelo é, no entanto, injusto e totalmente desajustado da realidade: o tradutor tem de saber criar na língua de chegada e pelo menos apreciar na língua de partida, tem mais graus de liberdade para criar (mais factores com que tem de contar) e, se for um bom criador, tem aliás a obrigação de criar algo melhor do que o original. Isto, que é em geral aceite ou mesmo reconhecido pelos próprios tradutores quando se trata de tradução técnica (veja-se a apresentação de Karen Shashok neste seminário), é anátema na tradução literária, embora existam vários casos – considerados patológicos, em vez de óbvios – em que o texto traduzido (ou a obra adaptada) é considerada melhor do que o original.

Mas, se considerarmos que o tradutor é um criador, e que está a usar as ideias do criador inicial para uma nova criação (o que aliás – note-se – não é rigoroso, porque está a usar o seu conhecimento do autor, da língua do autor e da cultura do autor para deduzir uma interpretação das ideias do criador) pode imediatamente concluir-se que, como todo o acto de criação, pode ou não (se for possível e lícita a comparação) ser melhor do que o "original" ou primeira versão. E que os livros (científicos, ou obras literárias) deviam ter na capa com direitos iguais de fruição e honra, os nomes dos criadores em ambas as línguas. Como já referimos (veja-se também Herold, neste volume), uma tradução científica pode melhorar significativamente o original (e também o pode piorar significativamente, claro, sejamos realistas), na próxima edição.

Se, em vez de se considerar o tradutor um arquivista ou copista que a única coisa que faz é passar a papel químico uma determinada obra de uma língua para outra, mas que, pelo contrário, cria, com base nas ideias expressas noutra cultura (por isso é tradutor), imediatamente se vê que a única coisa que separa o tradutor do criador é a de que o tradutor precisa de um conhecimento (linguístico e cultural) duplo.

Apelo pois a todos os tradutores e a todos os que têm alguma influência nestas matérias à consciencialização dos direitos dos tradutores e do valor do tradutor como criador. Todos sabemos que aos escritores e outros criadores nem sempre foram concedidos os direitos e o respeito que detêm actualmente (as peças no tempo de Shakespeare eram copiadas e publicadas por quem quisesse e o texto mudado ao sabor do encenador e/ou do dono do teatro; os compositores musicais no tempo de Bach eram contratados com a condição de produzirem um número fixo de peças por semana, mês ou ano, etc.). Parece-me chegada a altura de também os tradutores terem o respeito que merecem.

Lembremo-nos que existe neste momento uma indústria de edição, por exemplo nos Estados Unidos, em que "autores" na sombra ajudam a redigir memórias e outros livros de pessoas que não sabem escrever bem, os chamados "copy editors", deixando pois a maior parte do ímpeto criativo a profissionais da criação, por vezes como co-autores. Lembremo-nos que uma grande parte do tempo usado na orientação de alunos de mestrado ou doutoramento se refere a normas de redigir, a revisão ou reescrita dos textos "originais" por parte dos orientadores, que existem programas de mentorado em praticamente todas as conferências científicas internacionais de renome para aumentar as possibilidades de artigos escritos por estudantes serem aceites, que assistimos à proliferação de empresas que se dedicam à melhoria da língua e da redacção (geralmente sobre a língua inglesa). Isto demonstra a importância que a redacção tem na prática quotidiana da ciência (e não só). Não me parece contudo possível separar o conteúdo da forma e formar profissionais só na forma ou só no conteúdo: é no mínimo precisa uma colaboração entre várias pessoas com perfis diferentes para transmitir e melhorar tanto o conteúdo como a forma.

 

Influência de uma língua noutra

Existe um outro factor que vale a pena considerar, quando se menciona ou identifica a influência de uma língua nos textos de outra. Essa influência, saliente-se, é invocada quando se fala quer a favor quer contra a existência da prática da tradução, quer sobre a educação científica ou outra, quer sobre a educação literária, quer sobre o estado da língua ou da educação em geral. Embora este assunto seja de certa forma independente – ou apenas indirectamente relacionado – com a prática da tradução, parece ser usado (sem razão, na minha opinião, em ambos os casos) quer para defender a necessidade de mais tradução, quer para a criticar como texto de segunda categoria, o chamado tradutês (Santos, 1998b, 2000). O perigo, ou o espectro, da perda de identidade cultural ou linguística devido à ameaça doutra língua ou cultura (de momento o inglês, mas o discurso em Portugal já foi semelhante em relação ao francês) é na minha opinião uma consequência directa da falta de conhecimento, tanto em relação à própria língua como em relação às línguas que nos "ameaçam".

Pois não é o melhor tradutor aquele que conhece em maior profundidade ambas as línguas, e daí também as mais subtis diferenças entre elas (que passam evidentemente despercebidas quanto menos se conhece ou sabe a outra língua)? Alunos universitários com conhecimento deficiente do inglês, no qual tentam ler a matéria que devem aprender, é certo e sabido que adquirem conceitos deficientes que não conseguem sequer traduzir pelas suas próprias palavras, e pedem emprestados os nomes a outra línguas porque simplesmente não os conseguiram assimilar.

É também em pessoas com menos educação que se ouvem os mais imediatos estrangeirismos porque não conhecem simplesmente o sentido do que estão a dizer e não podem pois traduzi-lo. Veja-se o uso de Corn Flakes em vez de flocos (de milho) ou de e-mail em vez de endereço.

A minha conclusão é que – em vez de fugir da "ameaça", deve-se enfrentá-la e dar a todos a possibilidade de apreciarem as diferenças, não só sendo formados em inglês, como em tradução / comparação entre português e inglês. Porque aqueles que são mais influenciados por uma contaminação perniciosa são precisamente aqueles que bebem a influência estrangeira sem dela se poderem defender, sem sobre ela poderem raciocinar e em última análise contra ela vacinar-se.

Formulei esta hipótese em Santos (1998b) a propósito dos livros infantis (mal) traduzidos, mas a minha prática de revisão quotidiana dos textos em português dos meus alunos e colaboradores desde aí elevou-a a um estatuto de quase certeza: Quanto menor é o domínio da língua inglesa onde eles vão beber o conhecimento, pior é a capacidade de se exprimirem correctamente na língua portuguesa e de comprenderem ou demonstrarem essa compreensão (em qualquer das línguas).

Em conclusão, a prática da tradução e a da redacção na língua materna devem ser incentivadas na sociedade do conhecimento, assim como o conhecimento profundo das duas línguas e dos assuntos que se quer traduzir. Pois, como antes se dizia no contexto da tradução automática, é preciso compreender para traduzir, e um tradutor precisa de conhecer o assunto sobre o qual está a re-redigir, assim como os métodos de o exprimir e comunicar, na língua original e ainda mais na língua de destino. Existem métodos automatizados para ajudar o tradutor (ou o cientista /autor como tradutor) a redigir na sua língua, mas não nos esqueçamos que a tradução é sempre feita para pessoas, e que o tradutor (mesmo socorrendo-se de programas de apoio) é o responsável pelo resultado final.

 

Agradecimento

O trabalho descrito neste artigo foi parcialmente financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), co-financiada pelo POSI, através do projecto POSI/PLP/43931/2001 (Linguateca). Gostava também de agradecer à FCT pelo convite e financiamento da viagem para participar no seminário, aos meus colegas conferencistas pelo estímulo intelectual, e à Eng. Gabriela Lopes da Silva pela sua hospitalidade em Lisboa.

 

Referências

Aycock, Wendell & Michael Schoenecke (eds.). Film and Literature: A comparative approach to adaptation. Lubbock, Texas: Texas Tech University Press, 1988.

Barker, Martin & Roger Sabin. The Lasting of the Mohicans: History of an American Myth. Jackson: University Press of Mississipi,  1995.

Bey, Youcef, Christian Boitet & Kyo Kageura. "The TRANSBey Prototype: An Online Collaborative Wiki-Based CAT Environment for Volunteer Translators", Third International Workshop on Language Resources for Translation Work, Research & Training (LR4Trans-III), at LREC 2006, (Genoa, Italy, 28 May 2006), pp. 49-54.

Brewster, Christopher, Iria, Ciravegna & Wilks. "The Ontology: Chimaera or Pegasus", Dagstuhl workshop on Learning for the Semantic Web, 13-18 February 2005.

Cartmell, Deborah & Imelda Whelehan (eds.). Adaptations: From text to screen, screen to text. London & New York, Routledge, 1999.

Chatman, Seymour. Coming to Terms: The Rethoric of Narrative in Fiction and Film. Ithaca & London: Cornell University Press, 1990.

CEC. "Commission Staff Working document: Report on European Technology Platforms and Joint Technology Initiatives: Fostering Public-Private R&D Partnerships to Boost Europe’s Industrial Competitiveness". Brussels, 10-6-2005. SEC (2005) 800.

Crouch, Richard, Robert Gaizauskas & Klaus Netter. "Report of the study group on assessment and evaluation". Interim report, DFKI, Saarbrücken, 1995. Disponível em www.coli.uni-saarland.de/publikationen/softcopies/Crouch:1995:RSG.pdf.
[18 de Dezembro de 2006]

Eco, Umberto. "O hábito fala pelo monge". Psicologia do vestir. Assírio & Alvim, 3.a edição, 1989, [1975], pp. 7-20.

Feitelson, Dror G. "Experimental Computer Science: The Need for a Cultural Change". Disponível em http://www.cs.huji.ac.il/~feit/papers/exp05.pdf.
[15 de Novembro de 2006].

Foote, Horton. "Writing for Film", in Aycock, Wendell & Michael Schoenecke (eds.). Film and Literature: A comparative approach to adaptation. Lubbock, Texas: Texas Tech University Press, 1988, pp.5-20.

Gahegan, Mark & William Pike. A Situated Knowledge Representation of Geographical Information. Transactions in GIS 10, 2006, pp.727-749.

Isabelle, Pierre, Marc Dymetman, George Foster, Jean-Marc Jutras, Elliot Macklovitch, François Perrault, Xiaobo Ren & Michel Simard. "Translation Analysis and Translation Automation", Proceedings of the Fifth International Conference on Theoretical and Methdological Issues in Machine Translation, TMI'93 (Kyoto, July 14-16, 1993), pp.201-17.

Kilpatrick, Jacquelyn. "Keeping the Carcass in Motion: Adaptation and Transmutations of the National in The Last of the Mohicans", in Stam, Robert & Alessandra Raengo (eds.). Literature and film: a guide to the theory and practice of film adaptation. Malden, Mass.: Blackwell,  2005, pp.71-85.

Lab, Frédérique. "Le Temps de la Linguistique", T.A. Informations 31, 1990, N.1, pp.49-55.

Lakoff, George & Mark Johnson. Metaphors We Live By. University of Chicago Press, Chicago & London, 1980.

Macklovitch, Elliott. "Peut-on vérifier automatiquement la cohérence terminologique?", META 41, no. 3, 1996, pp. 299-316.

Maia, Belinda. "Terminology and Translation - Bringing Research and Professional Training Together Through Technology". In META Simposium - For a Proactive Translatology (Université de Montréal, Québec, Canadá, 7-9 de Abril de 2005).

Maia, Belinda & Luís Sarmento. "Corpógrafo - Applications". In Third International Workshop on Language Resources for Translation Work Research & Training, Satellite event of LREC 2006 (LR4Trans-III) (Genoa, 28 May 2006), pp. 55-58.

McDougal, Stuart Y. Made into Movies: From Literature to Film. Harcourt Brace Jovanovich College Pusblishers, 1985.

Popescu-Belis, Andrei. "An experiment in comparative evaluation: humans vs. computers". Machine Translation Summit IX (Nova Orleães, Louisiana, USA, 23-27 de Setembro de 2003), pp. 307-314.

Reynolds, Peter (ed.). Novel Images: Literature in Performance. London & New York: Routledge, 1993.

Rino, Lucia Helena Machado e Thiago Alexandre Salgueiro Pardo. "A Coleção TeMário e a avaliação de sumarização automática", in Santos, Diana (ed.), Avaliação conjunta: um novo paradigma no processamento computacional da língua portuguesa, IST Press, 2007.

Sampson, Geoffrey. Empirical Linguistics. Continuum, 2001.

Santos, Diana. "A relevância da vagueza para a tradução, ilustrada com exemplos de inglês para português", TradTerm 5, 1, Revista do centro interdepartamental de tradução e terminologia, FFLCH - Universidade de São Paulo, 1998, pp. 41-70. Versão preliminar em "The importance of vagueness in translation: Examples from English to Portuguese", Romansk Forum 5 (1997), Junho 1997, pp. 43-69.

Santos, Diana. "O tradutês na literatura infantil traduzida em Portugal", Actas do XII Encontro da Associação Portuguesa de Linguística (Lisboa, 1-3 de Outubro de 1997), APL, Lisboa, 1998, pp. 259-274.

Santos, Diana. "Um olhar computacional sobre a tradução", Terminologie et Traduction 2 (1999), pp. 124-37.

Santos, Diana. "O computador e a tradução", comunicação no II Seminário de Tradução Científica e Técnica em Língua Portuguesa (Lisboa, 22-24 de Novembro de 1999), http://www.linguateca.pt/Diana/download/seminTradTecnica.rtf.

Santos, Diana. "The translation network: A model for the fine-grained description of translations", in Jean Véronis (ed.), Parallel Text Processing, Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2000, pp.169-186.

Santos, Diana. Translation-based corpus studies: Contrasting English and Portuguese tense and aspect systems. Amsterdam/New York, NY: Rodopi, 2004.

Santos, Diana, Belinda Maia & Luís Sarmento. "Gathering empirical data to evaluate MT from English to Portuguese", Proceedings of LREC 2004 Satellite Workshop on the Amazing Utility of Parallel and Comparable Corpora (Lisboa, Portugal, 25 de Maio de 2004), pp. 14-17.

Santos, Diana. "What is natural language? Differences compared to artificial languages, and consequences for natural language processing". Invited lecture, SBLP2006 and PROPOR'2006, Itatiaia, RJ, Brazil, 15 May 2006,
www.linguateca.pt/Diana/download/SantosPalestraSBLPPropor2006.pdf.

Santos, Diana. "Tradução automática". Material de ensino na Escola de Verão da Linguateca (10-14 de Julho de 2006),
www.linguateca.pt/escolaverao2006/TA/TraducaoEscolaVerao.pdf.

Santos, Diana. "A tradução na sociedade do conhecimento", palestra convidada no IX Seminário de Tradução Científica e Técnica em Língua Portuguesa 2006 'Ciência e Tradução', Lisboa, 13 de Novembro de 2006,
www.linguateca.pt/Diana/download/SantosSeminTradTec2006.pdf.

Santos, Manuela Pinto dos. "Hermann Hesse em Portugal: um apontamento". Palestra no Instituto Alemão, Janeiro de 1978.

Sarmento, Luís, Anabela Barreiro, Belinda Maia & Diana Santos. "Avaliação de tradução automática: panorâmica e reflexões", in Santos, Diana (ed.), Avaliação conjunta: um novo paradigma no processamento computacional da língua portuguesa, IST Press, 2007.

Alberto Manuel Simões, José João Almeida & Xavier Gomez Guinovart. "Memórias de Tradução Distribuídas". In José Carlos Ramalho & Alberto Simões (eds.), XML, Aplicações e Tecnologias Associadas (XATA 2004) (Porto, Fevereiro de 2004), pp. 59-68.

Simões, Alberto Manuel, Xavier Gomez Guinovart & José João Almeida. "Distributed Translation Memories implementation using WebServices". In Sociedade Española para el Procesamiento del Lenguaje Natural (SEPLN) 33 (Barcelona, Julho de 2004), pp. 89-94.

Simões, Alberto. "Extracção e Generalização de Recursos de Tradução com base em Dicionários Probabilísticos". 3º Simpósio Doutoral da Linguateca 2006 (Faculdade de Ciências - Universidade de Lisboa, 3-4 de Outubro de 2006),
http://linguateca.di.uminho.pt/~ambs/docs/sdling06-2.pdf.

Stam, Robert & Alessandra Raengo (eds.). Literature and film: a guide to the theory and practice of film adaptation. Malden, Mass.: Blackwell,  2005.

Thurmair, Gregor. "Hybrid architectures for machine translation systems", Language Resources and Evaluation 39,1, Feb 2005, pp. 91-108.

Whelehan, Imelda. "Adaptations: the contemporary dilemmas", in Deborah Cartmell & Imelda Whelehan (eds.). Adaptations: From text to screen, screen to text. London & New York, Routledge, 1999, pp. 3-19.

Woods, W. A. "What's in a link: Foundations for semantic networks" in D. G. Bobrow & A. M. Collins (eds). Representation and Understanding. New York: Acad

 

Diana Santos, SINTEF ICT, Pb 124 Blindern, NO-0314 Oslo, Noruega
diana.santos@sintef.no

 

[1] Na apresentação, usei a frase Wir alle sind Übersetzer, recorrendo à intertextualidade com Ich bin ein Berliner, frase célebre de Kennedy por ocasião da sua visita a Berlim após a queda do muro, remetendo, também ela, para a frase civis romanus sum: "Two thousand years ago the proudest boast was 'Civis Romanus sum'. Today, in the world of freedom, the proudest boast is 'Ich bin ein Berliner'".

[2] Para uma semiótica do vestuário, ver Eco (1988).

[3] A maior parte das vezes, a tradução (no sentido lato) é feita por uma pessoa diferente do autor, mas não necessariamente. Foote (1988: 7), por exemplo, afirma: Adapting my own plays presents certain problems, certainly, but adapting the work of other writers [...] when you try to get inside the world of another writer, you're under constant tension not to violate this person's vision. Adaptar as minhas próprias peças traz certos problemas, decerto, mas as de outros escritores... Quando se tenta entrar no mundo de outro escritor estamos sob tensão constante para não violar a visão dessa pessoa (tradução minha).

[4] Antes da tradução para português do Harry Potter, não havia o conceito, agora generalizado entre a juventude portuguesa, de muggle.

[5] Como mencionado na palestra de Bernardo Jerosch Herold.

[6] Segundo Whelehan (1999: 18), é bem documentado que "uma interpretação cinematográfica ou televisiva de um texto literário  aumenta substancialmente as vendas do livro" (tradução minha).

[7] O avanço da tecnologia, na forma de tradução assistida por computador ou tradução automática, cada vez mais força a língua, tanto do original como da tradução, a ser o mais padronizada e literal possível (tradução minha).

[8] Consequentemente, estas plataformas têm de ter liberdade para determinar a estrutura organizativa mais apropriada. Uma solução "modelo único" não é apropriada. (tradução minha)

[9] Uma avaliação braided é um candidato que obedece aos requisitos descritos acima. O modelo de braid parte da observação... (tradução minha).

[10] Esta minha convicção provém do facto de ter encontrado vários jovens universitérios portugueses, quer de letras quer de ciências, que, quando querem dizer que não têm fundamentação para uma dada afirmnação, dizem: "é uma observação empírica", querendo dizer (na minha opinião) heurística, ou até simplemente "baseada na intuição" (!).

[11] É interessante notar, conversamente, que em correspondência comigo Geoffrey Sampson comentou que "Experimental linguistics" em inglês teria uma conotação essencialmente negativa, por emparelhar preferencialmente com "Experimental theater" (teatro experimental).

[12] As críticas sociais da ciência reagem contra a objectividade comummente assumida de métodos e dados, afirmando que esses recursos científicos são artefactos carregados de valores (subkectivos), mas que possivelmente dizem tanto sobre os seus criadores como sobre o mundo. (tradução minha)

[13] Os conceitos que criamos para nos ajudar a compreender o mundo dizem tanto sobre nós como sobre o mundo... não são estáticos, vão mudando com o desenvolvimento da nossa compreensão pessoal. (tradução minha)

[14] Veja-se o aforismo de Baudelaire, citado em Feitelson (2005): It is by universal misunderstanding that all agree. For if, by ill luck, people understood each other, they would never agree. Ou seja: é por um mal-entendido global que todos concordam. Porque, se por azar as pessoas se entendessem umas às outras, elas nunca concordariam (tradução minha).

[15] Como afirmam Brewster et al. (2005), A text is an act of knowledge maintenance. [...]A primary purpose of a text at some level is to change the relationship between existing concepts, or change the instantiations of these concepts [...] or adding new concepts to the existing domain ontology. Um texto é um acto de manutenção de conhecimento. Um dos objectivos primordiais de um texto é mudar a relação entre conceitos pré-existentes, ou mudar os exemplares que representam esse conceito, ou adicionar novos conceitos à ontologia do domínio. (tradução minha)

[16] Refira-se neste ensejo a comunicação de Jacques Pélage (neste volume), fazendo a ponte entre a tradução jurídica e a tradução de vários outros géneros textuais, e relembrando que também o texto jurídico tem sido visto como produção literária.

[17] Como salientado por Ramos (neste volume).

[18] Como Barker e Sabin (1995:9) notaram, a "liberdade de interpretação" transforma o romance original num "recipiente vazio: todos conhecem o título, mas isso não os obriga a nada. No entanto, quando se faz um esforço consciente de reinterpretação, algo passa do recipiente para o conteúdo, colorindo-o e temperando-o." [No caso da obra O último moicano] o que sai do recipiente é o mito americano, a forma como os americanos brancos se vêem. Naturalmente, esta visão é um pouco diferente de cada vez que a história é recontada, de cada vez que o cadáver é reinventado e posto outra vez em movimento. (tradução minha)

 

Diana Santos doutourou-se em engenharia informática com uma tese em semântica contrastiva baseada em traduções em 2006, pelo Instituto Superior Técnico, em Lisboa, após um mestrado e licenciatura em engenharia electrotécnica e de computadores no mesmo instituto, respectivamente com uma tese em tradução automática em 1988 e um trabalho de fim de curso processamento de fala em 1985. As suas áreas principais de trabalho, em processamento computacional da língua portuguesa, são a avaliação, a tradução, o estudo de corpora e a análise semântica e sintáctica. Desde 1988 que lidera a Linguateca, um centro de recursos -- distribuído -- para o processamento computacional da língua portuguesa, www.linguateca.pt. Publicou em 2004 o livro Translation-based corpus studies: Contrasting Portuguese and English tense and aspect systems pela Rodopi, e encontra-se no prelo da ISTPress o livro Avaliação conjunta: um novo paradigma no processamento computacional da língua portuguesa.

 

 

 

Apoios
Instituto Franco-Português
Instituto Camões
Instituto Cervantes
Representação
da Comissão Europeia
em Portugal

 

 

 

 

Terminometro | Línguas e Culturas na Web ― Estudo 2007 | Portalingua | Agenda | Outros endereços web

União Latina
Direção Terminologia e Indústrias da Língua - DTIL
131, rue du Bac - F-75007 Paris
T: (33) 1 45 49 60 62   /   F: (33) 1 45 49 67 39
dtil@unilat.org