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1. Introduçom Diversos estudiosos da traduçom tenhem glossado em tempos recentes o importante papel que pode e deve desempenhar umha crítica ou avaliaçom de traduções bem fundamentada. Assim, Reiss (2000: xi) atribui à crítica de traduçom três funções: contribuir para melhorar a qualidade das traduções nas nossas sociedades, suscitar no público a procura de melhores traduções e aguçar a consciência lingüística (especialmente num contexto pedagógico), ampliando assim o horizonte tanto lingüístico como extralingüístico do crítico [1]. No entanto, a despeito destes beneficiosos efeitos enunciados por Reiss, deve constatar-se que, infelizmente, nom som abundantes os estudos de carácter geral publicados sobre crítica de traduçom (para umha revisom, cf. House, 1998; Maier, 1998; Kaindl, 1999), e extremamente raros os relativos à crítica de algumha das modalidades de traduçom especializada (cf. Martínez Melis e Hurtado Albir, 2001: 283). Por conseguinte, nom admira que se revele de grande interesse qualquer trabalho devotado a analisar de um ponto de vista teórico as pautas que devem guiar a crítica da traduçom técnico-científica, bem como o próprio exercício da crítica de traduções técnico-científicas concretas, que aplica os critérios expostos nos trabalhos teóricos. A este respeito, há de levar-se em conta, em primeiro lugar, a grande influência que no desenvolvimento da Matemática, das Ciências Naturais e da Técnica tivo e tem a traduçom [2]; em segundo lugar, o importante papel desempenhado historicamente pola traduçom de textos técnico-científicos na constituiçom das línguas especializadas em português [3]; e, em terceiro lugar, a circunstância de a traduçom de textos técnico-científicos (enquanto puramente instrumental) integrar um âmbito privilegiado – frente, por exemplo, à crítica de traduçom literária ou de textos religiosos – para a prática de umha avaliaçom objectiva ou intersubjectiva, de carácter argumentativo. Com efeito, seguindo Reiss (1989: 72, apud Kaindl, 1999: 373), entendemos que a essência ou objectivo de umha crítica de traduçom cientificamente fundamentada deveria ser "die Feststellung, Beschreibung und Bewertung der angebotenen Übersetzungslösungen in einem Zieltext (ZT) und dies nicht rein subjektiv, sondern argumentativ und intersubjektiv nachvollziehbar" [4]. Neste contexto, o presente trabalho analisa, em primeiro lugar, os princípios que, a nosso juízo, devem nortear a crítica de traduções técnico-científicas (alínea 2) e, a seguir, fai umha proposta de metodologia concreta para a crítica de traduçom de livros técnico-científicos (alínea 3), a qual inclui umha categorizaçom prévia e específica dos erros cometidos na traduçom (alínea 4). Algumhas apreciações feitas neste trabalho apresentam particular relevância para o caso da traduçom de textos científicos em línguas socialmente minorizadas (ou subordinadas), as quais precisam de habilitar, ou reabilitar, o seu discurso especializado. Tal se deve a que na origem da presente comunicaçom se encontra um estudo crítico, realizado por quem isto assina (Garrido, 2004a), de traduções de livros científicos recentemente publicadas em galego-português da Galiza.
2. Princípios a nortearem a crítica de traduçom de livros técnico-científicos Em primeiro lugar, deve esclarecer-se que das diferentes modalidades existentes de crítica de traduções publicadas (cf. Martínez Melis e Hurtado Albir, 2001: 273), aqui nos ocuparemos exclusivamente daquela que se exerce em relaçom a umha única traduçom de um determinado texto, embora também caiba efectuar críticas comparativas (sincrónicas) de especial interesse. Se bem que seja possível a realizaçom de actividades de crítica de um texto-alvo (traduzido) estudando unicamente esse texto, sem qualquer confronto com o original (aspecto em que incidem algumhas propostas funcionalistas extremas: cf. Kaindl, 1994; 1999: 375, 376), com Reiss (2000) e House (1981, 1997), temos de admitir que umha crítica de traduçom que realmente o seja deve incluir, como componente fundamental, umha comparaçom pormenorizada do texto de chegada com o texto de partida, para se poder apreciar assim a bondade das soluções tradutivas plasmadas no texto-alvo. Em palavras de Reiss:
Isso nom quer dizer, naturalmente, que de umha boa crítica de traduçom nom podam fazer parte análises do texto-alvo enquanto texto independente; de facto, como se verá numha alínea posterior, julgamos que a crítica de traduçom técnico-científica deve incluir inescusavelmente umha apreciaçom detalhada da correspondente língua especializada utilizada no texto-alvo e, sobretudo no caso de umha traduçom feita para umha língua socialmente minorizada, também umha apreciaçom da correcçom da língua geral empregada no texto de chegada (cf. Souto, 1996: 18, 48-53). Se, como acabamos de afirmar, é fundamental na crítica de umha traduçom a comparaçom entre o texto de partida e o de chegada, na crítica de traduçom de textos técnico-científicos, os quais som de carácter informativo e orientados para o conteúdo, esta comparaçom deverá avaliar principalmente a constância ou invariância da designaçom entre os dous textos, segundo explica Reiss:
De harmonia com Martínez Melis e Hurtado Albir (2001: 283), também somos da opiniom que na crítica de umha traduçom deve fazer-se uso de critérios objectivos que definam tipos de erro na traduçom e determinar-se a gravidade dos erros de acordo com critérios funcionalistas, sem atribuir coeficientes fixos aos erros; além disso, o crítico deve ter em conta as soluções boas dadas na traduçom e adoptar umha perspectiva flexível da avaliaçom, que permita realizar apreciações parciais de certos aspectos da traduçom (como, por exemplo, da qualidade da língua especializada ou da correcçom da língua geral). Igualmente, com o intuito de potenciar a objectividade da crítica e a sua funçom pedagógica, a crítica de traduçom deve ser construtiva (Reiss, 2000: 5, 15), no sentido de oferecer propostas alternativas às soluções censuradas ou rejeitadas. Atendendo ao cariz especializado da traduçom avaliada, cremos que a crítica de traduçom de textos técnico-científicos deve incluir, por um lado, umha apreciaçom da correspondente estratégia tradutiva geral aplicada, a qual pode eventualmente concretizar-se na realizaçom de traduções (profusamente) comentadas ou glossadas (traduçom documental filológica, face à traduçom comunicativa ou instrumental eqüifuncional) ou na participaçom de revisores científicos e/ou lingüísticos, aspectos estes que dizem respeito nom apenas ao tradutor, como também, freqüentemente, ao iniciador da traduçom; por outro lado, a crítica de traduçom técnico-científica deve prestar atençom à qualidade da correspondente língua especializada utilizada no texto-alvo, a qual nom somente inclui o componente terminológico e fraseológico (lexical), mas também outros aspectos, como as convenções do correspondente género textual, a morfossintaxe especializada ou os elementos paralingüísticos. Esta apreciaçom da qualidade da língua especializada empregada no texto-alvo revela-se fulcral porque, como sustenta Reiss:
Especialmente no caso da crítica de traduçom técnico-científica para línguas socialmente minorizadas, como o galego-português da Galiza, cremos que também há de avaliar-se, em primeiro lugar, a eficácia sociolingüística do correspondente acto de traduçom, quer dizer, deverá avaliar-se em quê medida a publicaçom dessa traduçom pode influir na promoçom e difusom social da língua subordinada; em segundo lugar, deverá prestar-se particular atençom aos critérios de habilitaçom da correspondente língua especializada, sobretudo nos casos em que esta habilitaçom se deva conduzir polos padrões da traduçom criativa (este é, por exemplo, o caso da traduçom técnica para malgaxe: Rajaspera, 1996) e naqueloutros em que, embora as estratégias de habilitaçom nom devam ser criativas, elas, por algumha causa, se achem ainda submetidas a debate (caso do galego-português na actual Galiza: Garrido, 2001: 31-37, 61-65); em terceiro lugar, dadas as penosas circunstâncias em que freqüentemente tenhem de desenvolver-se os idiomas minorizados, a crítica de traduçom para essas modalidades lingüísticas também deveria incluir umha apreciaçom da correcçom da língua geral empregada no texto-alvo. Por último, acrescente-se que toda a crítica de traduçom, e a esse respeito a crítica de traduçom técnico-científica nom constitui qualquer excepçom, deverá ser completada por umha apreciaçom global e sumária da qualidade dessa traduçom, apreciaçom derivada coerentemente de todas as avaliações precedentes, e que Hjørnager Pedersen olha como sendo responsabilidade incontornável do estudioso da traduçom:
3. Proposta metodológica para a crítica de traduçom de livros técnico-científicos Para o estabelecimento de umha metodologia que nos permita ajuizar com objectividade (intersubjectivamente) a qualidade de umha traduçom de um livro técnico-científico, partimos dos contributos teóricos de Reiss (2000), de focagem textual-tipológica, e de House (1981, 1997, 2001), de focagem pragmático-lingüística, embora nom abracemos nengum deles de modo absoluto, por julgarmos que a crítica de traduçom técnico-científica apresenta caracteres nom considerados suficientemente nessas duas propostas (que som gerais, nom específicas), e por estas nom terem em conta as peculiares circunstâncias que afectam a traduçom, como no caso galego, em línguas socialmente minorizadas. Como foi dito antes, a nossa crítica de traduçom, por esta ter sido feita num idioma socialmente subordinado, inclui umha avaliaçom da sua eficácia sociolingüística na promoçom da correspondente modalidade lingüística. Esta avaliaçom da eficácia sociolingüística de um acto de traduçom pode fazer-se tendo em conta umha série de variáveis pragmático-comunicativas que se relacionam com os efeitos exercidos por umha traduçom sociolingüisticamente eficaz, os quais fôrom estudados por Garrido (2002). Dentre esses efeitos associados a um acto de traduçom, os que aqui se revelam pertinentes som: nom ser redundante ou supérfluo (nom substituir textos escritos em variantes, socialmente estabilizadas, da modalidade lingüística minorizada / nom concorrer com textos escritos na língua-teito: cf. Souto, 1996: 27), preencher lacunas no repertório textual da língua minorizada, promover o ensino na língua minorizada, atingir um público extenso, suscitar prestígio para a língua minorizada, desenvolver a terminologia e o estilo de redacçom técnico-científicos na língua minorizada e concorrer vantajosamente com a oferta textual da língua-teito ou reduzir ou evitar tal concorrência. Como segundo elemento da nossa crítica da traduçom técnico-científica, julgamos precisa umha apreciaçom da adequaçom da estratégia tradutiva geral aplicada, a qual se plasma, por um lado, na escolha do modelo de traduçom a seguir e, por outro, nas características do tradutor e na eventual participaçom na ediçom da traduçom de especialistas e revisores científicos ou lingüísticos, para além do próprio tradutor. Quanto ao primeiro aspecto referido, e em vista da natureza do texto original, do escopo da traduçom e da situaçom comunicativa de chegada, o tradutor (ou iniciador) deve optar entre a realizaçom de umha traduçom instrumental eqüifuncional (= traduçom comunicativa), umha traduçom documental filológica ou umha traduçom instrumental heterofuncional (= adaptaçom; Göpferich, 1995: 172, 173; Nord, 1997: 51-55; cf. Garrido, 2001: 31-37; 2004b) [5]. Quando na traduçom técnico-científica se há de conservar o género textual do original, o caso mais freqüente é o da traduçom comunicativa, que se revela apropriada para verter textos "de actualidade", quando o principal interesse da traduçom reside em tornar acessível – do modo mais eficaz possível – a informaçom contida no original [6]; só nos casos em que – como nos chamados "clássicos da Ciência" (que também podem ser "clássicos modernos") – o interesse da traduçom nom radique tanto na transmissom de uns conteúdos, que podem estar mais ou menos periclitados, quanto na disponibilizaçom, estudo e análise de um texto de importância histórica para umha determinada disciplina, é que se revelará pertinente a traduçom documental filológica (provida freqüentemente de um estudo da obra ou do autor, de um aparato de notas de conteúdo histórico, de glossários, etc., elaborados polo próprio tradutor ou por outro especialista). Em relaçom ao segundo aspecto referido, diga-se que, levando em conta as características do texto original (campo, grau de especializaçom) e as do(s) respectivo(s) tradutor(es) (formaçom, experiência), o crítico deve ponderar se o iniciador da traduçom tomou, em princípio, umha decisom correcta ao adjudicar a correspondente encomenda de traduçom (cf. O’Neill, 1998), para o que é fundamental considerar-se a eventual participaçom no processo de ediçom da traduçom de revisores científicos e/ou lingüísticos (cf. Didaoui, 1999: 382, 383). Em relaçom à apreciaçom da estratégia tradutiva geral de umha traduçom técnico-científica, julgamos que o crítico deve estudar com atençom os textos auxiliares do tradutor eventualmente presentes – tanto os peritextuais (prólogos ou epílogos) como os paratextuais (notas [de rodapé] do tradutor) –, pois neles o tradutor poderia (e deveria) explicitar a sua estratégia geral de traduçom (e, eventualmente, declarar os procedimentos seguidos para a habilitaçom da língua especializada no idioma subordinado); por outro lado, nestes elementos textuais também se reflecte em muitos casos a qualidade da transmissom de informaçom (notas para realizar ou explicar adaptações no quadro da traduçom instrumental; notas glossadoras de aspectos históricos no quadro da traduçom documental). A este respeito, som ilustrativas as palavras de João Azenha:
A seguir, como terceiro elemento da nossa proposta de crítica de traduçom técnico-científica, figura a própria avaliaçom da qualidade da traduçom, a qual se baseia, naturalmente, numha comparaçom pormenorizada do texto de partida e do texto de chegada. No decurso desse estudo comparativo, procede-se a efectuar um levantamento, identificaçom e ponderaçom dos erros (de traduçom) presentes no texto-alvo analisado, segundo os critérios que serám expostos na próxima alínea 4. Em benefício da objectividade, transparência e utilidade desta comparaçom crítica, as unidades disfuncionais detectadas no texto-alvo deverám ser arranjadas em confronto com as correspondentes unidades do texto-fonte, e aquelas aparecerám acompanhadas das soluções alternativas propostas polo crítico como mais correctas ou adequadas. Para além de erros, esta secçom da crítica deve incluir também umha identificaçom e comentário das soluções do tradutor que o crítico julga especialmente elegantes, e que servem para perfilar a sua apreciaçom da qualidade da traduçom. Ora, esta comparaçom pormenorizada de textos (com formato de livro) nom poderá habitualmente realizar-se com a totalidade da traduçom, de modo que aqui se impom umha estratégia de amostragem que se revele significativa. Williams (2001: 328) adverte dos riscos associados à tomada de amostras textuais no quadro da crítica de traduções, que se cifram nas circunstâncias de, primeiro, o crítico nom poder beneficiar todo o cotexto para assim captar o significado do texto em conjunto e, segundo, de o material analisado ser insuficiente e daí poder derivar-se umha apreciaçom injusta (positiva ou negativa). No entanto, pensamos que, quando o texto-alvo a analisar é um livro – o qual, por definiçom, se estende por mais de 50 páginas –, a tomada de amostras textuais por parte do crítico é irrepreensível desde que se cumpram umhas mínimas condições. Julgamos que umha boa amostragem é aquela que: primeiro, considera suficiente material textual (representatividade), que podemos situar num mínimo de c. 25% do texto-alvo; segundo, inclui no escrutínio aquelas secções textuais que se revelam especialmente importantes para o significado da obra (relevância), como, em geral, o título da obra, o índice, o prólogo do autor, o epílogo do autor, glossários, quadros, ilustrações e tabelas, etc.; e, terceiro, nom fragmenta capítulos (quer dizer, analisam-se capítulos íntegros: continuidade), para facilitar a captaçom do significado do texto por parte do crítico. É interessante que a apreciaçom da qualidade da traduçom inclua avaliações parciais de aspectos essenciais da mesma, como som, segundo se argumentou, a transmissom eficaz da informaçom (reparando na eventual presença de notas do tradutor), a correcçom da língua geral e a qualidade da língua especializada. Por outro lado, a partir da comparaçom pormenorizada do texto-fonte e do texto-alvo torna-se possível quantificar a apreciaçom da qualidade da traduçom (freqüência de erros). Finalmente, levando em conta os resultados do estudo do texto-alvo e da comparaçom pormenorizada de original e traduçom, o crítico deverá poder realizar umha avaliaçom global e sumária da qualidade da traduçom, que poderá formular-se simplesmente em termos de "traduçom de qualidade óptima", "traduçom de qualidade aceitável", "traduçom que precisa de revisom" e "traduçom inaceitável", conforme, por exemplo, o Sistema Canadiano de Mediçom da Qualidade Lingüística (Sical, cf. Williams, 2001: 329, 330).
4. Tipologia e ponderaçom de erros na traduçom técnico-científica Para o estabelecimento de umha tipologia, categorizaçom ou classificaçom de erros de traduçom partimos da proposta de Nord (1994: 368, 369), a qual deriva de uns pressupostos ou instruções de traduçom funcional (= comunicativa) que som também pertinentes para a traduçom de textos técnico-científicos (de modo pleno, para a traduçom técnico-científica de carácter instrumental, a dominante neste âmbito; com algumhas reservas, também para a traduçom documental), a saber: a proeminência da funçom representativa sobre quaisquer outras (possíveis) funções, a inserçom do texto-alvo na situaçom comunicativa de chegada, a adaptaçom formal do texto-alvo às convenções imperantes na comunidade sociocultural de chegada e a observância das normas ou usos próprios da língua de chegada. A contravençom das duas primeiras instruções citadas determina erros de traduçom pragmáticos (que, na nossa proposta, v. infra, som: informaçom falsa, informaçom imprecisa/pobre, omissom, informaçom ambígua/obscura, inadequaçom conceptual); a contravençom da terceira instruçom origina erros de traduçom específicos do par de culturas envolvidas na traduçom (na nossa proposta: inadequaçom estilística, convenções tipográficas, exónimos e convenções terminológicas), e contrariar a quarta instruçom fai nascer erros de traduçom específicos do par de línguas envolvidas na traduçom (na nossa proposta: decalque). Por outro lado, se bem que, com Nord (1994: 367), admitamos que nom se devem conceituar propriamente como erros de traduçom os casos de contravençom das normas lexicais e sintácticas do sistema lingüístico de chegada, quando nom induzida por interferência com a língua-fonte, pensamos que eles sim constituem, polo menos, erros na traduçom, e dado que, na traduçom de livros técnico-científicos, o tradutor deve produzir um original apto para a impressom que transmita a autoridade associada ao correspondente autor, julgamos necessário que a crítica considere com atençom as deficiências no emprego da língua-alvo nom induzidas por interferência da língua-fonte que se registam no texto de chegada (na nossa tipologia, a esta categoria pertencem os erros de pontuaçom, tipografia, ortografia, os erros no léxico ou fraseologia da língua geral, os erros na morfossintaxe da língua geral, os problemas de coesom e, finalmente, os de redacçom). Relacionadas com as deficiências que se registam no emprego da língua geral no texto de chegada, encontram-se as deficiências no emprego da correspondente língua especializada, o qual representa um aspecto peculiar da traduçom especializada, em geral, e da técnico-científica, em particular, a que a crítica deve atender com especial preocupaçom (cf. Stolze, 1999: 240-249). Nesta categoria de erros, os desvios que consideramos som os de registo (quebra do registo culto, das convenções da língua escrita planificada, da formalidade científica), os de terminologia e fraseologia especializada e os de morfossintaxe especializada, prestando neste último caso particular atençom àquelas estruturas sintácticas mais características do tecnolecto científico da língua de chegada. Por último, na nossa proposta tipológica aparece a categoria dos erros dactilográficos ou tipográficos e lapsos, que podem ser constantes ou ocasionais, e que, dependendo da sua freqüência e natureza, podem repercutir-se gravemente contra a funçom representativa do texto, polo que a sua presença também vinca a importância da revisom em traduçom. A seguir, sem mais dilaçom, expom-se pormenorizadamente a nossa tipologia de erros de (ou na) traduçom, ilustrando cada tipo de desvio com algum exemplo tirado das traduções para galego até agora publicadas de livros técnico-científicos, cada umha das quais fica identificada mediante um número de ordem (de publicaçom) escrito entre colchetes [7]. A seguir a esta proposta tipológica, e como encerramento do presente trabalho, oferecem-se reflexões sobre a ponderaçom dos erros de traduçom na crítica.
Tipologia de erros na traduçom técnico-científica 1. Erros de traduçom pragmáticos (contra a transmissom eficaz dos conteúdos do original) 1.1. Contra a proeminência da funçom representativa
1.2. Contra a inserçom do texto-alvo na situaçom comunicativa de chegada
2. Erros de traduçom específicos do par de culturas envolvidas na traduçom (contra as convenções que regem na comunidade sociocultural de chegada: falta de adaptaçom formal do texto-alvo)
3. Erros de traduçom específicos do par de línguas envolvidas na traduçom (falta de observância dos usos ou normas da língua-alvo induzida pola língua-fonte, "atracçom da língua de partida": colocaçom do adjectivo, tempos verbais, perífrases verbais, divergências no emprego do artigo, traduçom de "falsos amigos" [10])
4. Deficiências no emprego da língua-alvo (zielsprachliche Mängel em Nord [1994: 367])
5. Erros dactilográficos ou tipográficos e lapsos (erros tipográficos constantes ou ocasionais)
Quanto à ponderaçom (funcionalista) de erros de traduçom, concordamos com Nord (1994: 371) em que os que mais devem pesar som, em geral, os pragmáticos (na nossa tipologia, os marcados com os códigos 1.1 e 1.2). Estes oponhem-se à funçom representativa do texto – a qual, no caso dos textos técnico-científicos, cobra especial realce – e à inserçom do texto-alvo na situaçom comunicativa de chegada, elementos que constituem a essência da traduçom instrumental ou comunicativa, a modalidade mais freqüente de traduçom técnico-científica. Dentre os erros pragmáticos, aqueles que alteram ou obscurecem a designaçom do original de maneira mais insidiosa (por o cotexto e contexto nom oferecerem ao respeito qualquer esclarecimento) som considerados especialmente graves, e marcados mediante o emprego do tipo negrito no rótulo identificativo do tipo de erro [11]. A seguir aos erros pragmáticos, consideramos na escala de gravidade as deficiências no emprego da língua especializada (subcategoria 4.2), sobretudo os casos de quebra do registo formal ou culto que corresponde a um texto científico (escrito) e alguns casos particularmente desajeitados de habilitaçom de léxico especializado (eventualmente também marcados mediante o tipo negrito). Também nom podemos deixar de considerar graves, em terceiro lugar, as deficiências no emprego da língua geral no texto-alvo (marcadas com o código 4.1), que detraem autoridade e prestígio ao texto e ao seu autor e empecem a difusom de um modelo de correcçom na língua de chegada.
5. Bibliografia Azenha Jr., J. 1999. Tradução técnica e condicionantes culturais: primeiros passos para um estudo integrado. Universidade de São Paulo. São Paulo. Didaoui, M. 21999. Evaluierung von Translationsleistungen: Qualitätslektorat. Em M. Snell-Hornby, H. G. Hönig, P. Kußmaul e P. A. Schmitt (org.). Handbuch Translation: 381-383. Stauffenburg Verlag. Tubinga. Fischbach, H. 1993. Translation, the great pollinator of science: a brief flashback on medical translation. Em S. E. Wright e L. D. Wright, Jr. (orgs.): Scientific and Technical Translation: 89-100. American Translators Association. Scholarly Monograph Series, Volume vi. John Benjamins Publishing Company. Amesterdám/Filadélfia. Garrido, C. 2001. Aspectos Teóricos e Práticos da Traduçom Científico-Técnica (Inglês > Galego). Associaçom Galega da Língua. Santiago de Compostela. Garrido, C. 2002. L’eficàcia de la traducció de textos cientificotècnics en la promoció d’una llengua socialment minoritzada (a propòsit del gallegoportuguès a Galícia). Em O. Diaz Fouces, M. García González e J. Costa Carreras (org.). Traducció i dinàmica sociolingüística: 151-173. Llibres de l’Índex. Barcelona. Garrido, C. 2004a. Análise e ensaio da crítica da traduçom (para galego) de livros técnico-científicos. Em C. Garrido (org.). Ferramentas para a Traduçom: 41-125. Associaçom Galega da Língua. Santiago de Compostela. Garrido, C. 2004b. Funcionalismo e traduçom de textos científicos de carácter didáctico. Agália, 79/80: 11-31. Göpferich, S. 1995. Textsorten in Naturwissenschaften und Technik. Pragmatische Typologie – Kontrastierung – Translation. Gunter Narr. Tubinga. Hjørnager Pedersen, V. 1997. Description and criticism: some approaches to the English translations of Hans Christian Andersen. Em A. Trosborg (org.). Text Typology and Translation: 99-115. Benjamins Translation Library, vol. 26. 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Por sua vez, Martínez Melis e Hurtado Albir (2001: 279) adscrevem à crítica de traduções publicadas os propósitos informativo (crítica independente de umha traduçom nos meios de comunicaçom), publicitário (para promover a venda de um produto), especulativo (se usada para a investigaçom nos Estudos de Traduçom) ou pedagógico (no ensino da Traduçom). Assim, Montgomery (2000: 270, 272; cf. Fischbach, 1993) afirma que "In rendering technical knowledge mobile between peoples and through the centuries, translation has been a crucial force behind both the creation and the continual refertilization of science. [...] The growth of scientific disciplines has been no less dependent upon translation than has literature or philosophy or religion." . Em palavras de Verdelho (1994: 340): "A partir do século xiv ou mesmo ainda no século xiii, inicia-se para a língua portuguesa a experiência decisiva da tradução do texto técnico, a partir sobretudo do latim e do castelhano. Foi pela via da tradução, mais do que pela da inovação tecnológica, que o português cultivou e desenvolveu a sua aptidão terminológica, recriando estruturas lexicais, adequando-se à escrita, e sistematizando o confronto interlinguístico com as línguas clássicas e progressivamente com as restantes línguas europeias, especialmente o francês.". "A identificaçom, a descriçom e a avaliaçom das soluções tradutivas oferecidas num texto-alvo, e isto nom de forma puramente subjectiva, mas de modo argumentativo e reproduzível intersubjectivamente" (traduçom nossa). A traduçom instrumental eqüifuncional (= traduçom comunicativa), que gera traduções encobertas (no sentido de House, 1981: 194), conserva o género textual original e reproduz no texto-alvo os conteúdos do texto original procedendo a umha adaptaçom à realidade da comunidade receptora de todos aqueles elementos do conteúdo ou da forma do texto original que estám ligados (em virtude de convenções socioculturalmente determinadas) à comunidade sociocultural de partida, o que pode reflectir-se na traduçom como modificações, reduções ou amplificações dos elementos originais; além disso, a traduçom comunicativa nom transfere para o texto-alvo as deficiências factuais e formais que se registam no original, de modo que o tradutor deve proceder a saneá-las. A traduçom documental filológica também conserva o género textual original, mas gera um texto-alvo que aparece marcado como sendo umha traduçom e que informa o leitor da traduçom acerca de certos aspectos do texto original e da sua situaçom comunicativa (mediante a adiçom de um estudo ou prólogo do tradutor extenso, umha profusom de notas do tradutor, epílogos, glossários, etc.: funçom metatextual); no quadro de umha traduçom documental, o tradutor transferiria para o texto-alvo os erros constantes do original, embora incluísse a sua emenda nas notas do tradutor. Finalmente, a adaptaçom ou traduçom instrumental heterofuncional (praticada como redacçom técnica interlingüística) caracteriza-se por umha inconstância do género textual e, ocasionalmente, por umha modulaçom da informaçom do texto original pensando em destinatários do texto-alvo de características diferentes das dos destinatários do texto-fonte. No entanto, na traduçom instrumental de algumhas obras de divulgaçom científica e monografias científicas contemporâneas —como acontece, em geral, na traduçom documental dos "clássicos da ciência"— também poderá estar envolvida umha certa imitaçom do “estilo” do original (elegância expressiva, carácter pessoal da prosa). Nalguns casos, um erro da traduçom pode adscrever-se a dous (ou mais) tipos. Exemplo: [1] p. 822>941: bottle brush > cepilho [castelhanismo; por: escova para limpar garrafas] 1.1.Informaçom Falsa + 4.1.Léxico Geral. Traduçom errada de cognatos enganadores que, dependendo do contexto, altera o sentido do original, como, por exemplo, (scientific) journal > jornal [por: revista (científica)]. Traduçom errada de termos especializados que determina alteraçom do sentido original. Por exemplo: birds > pássaros [= passeriformes; por: aves]. Traduçom errada de cognatos enganadores que nom induz a erro conceptual e apenas contravém aspectos formais da língua-alvo: severe disease > doença severa [por: grave/aguda] Assim, por exemplo, um erro de sentido (1.1.Informaçom Falsa) como o seguinte, por produzir-se no seio de umha unidade que no seu co(n)texto constitui um mero exemplo arbitrário, nom deve conceituar-se como grave: [4] p. 194,195>230: Or, more precisely, those are things we cannot do until after we have had a sensation, perceived something. Then we do often seek criteria and put them to use. [...] Perhaps, for example, something is odd about what we have seen (remember the anomalous playing cards). Turning a corner we see mother entering a downtown store [...] "That wasn’t mother, for she has red hair!" > [...] "Nom era a mamá, pois a mamá tem o cabelo loiro!" [por: ruivo].
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