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O papel dos professores e investigadores universitários na tradução científica

Bernardo Jerosch Herold, Instituto Superior Técnico, Universidade Técnica de Lisboa

 

Resumo:

Os professores e investigadores universitários são muitas vezes os primeiros a serem confrontados com o problema da tradução e adaptação à sua língua nacional de novos termos científicos e técnicos ligados à sua especialidade, criados em línguas estrangeiras, normalmente em inglês. Neste trabalho analisam-se os problemas e os resultados desses desempenhos com o auxílio de alguns exemplos e apresentam-se sugestões para melhorar a qualidade dessa actividade.

 

Índice:

1. Introdução

2. Exemplos históricos em nomenclatura química

2.1 Vicente Coelho de Seabra
2.2 A  J Ferreira da Silva
2.3 Adolpho Coelho
2.4 Rómulo de Carvalho
2.5 Conclusões sobre o papel dos professores e investigadores universitários na adaptação de termos estrangeiros

3. Desenvolvimentos recentes

4. Critérios na adaptação de termos estrangeiros

4.1 Evitar a criação de sinónimos desnecessários
4.2 Respeitar os modos eruditos tradicionais da etimologia para derivar termos do grego e latim clássicos.
4.3 Adoptar critérios coerentes para desinências e géneros
4.4 Procurar consensos entre utilizadores destacados

 

1. Introdução

Os oradores que me precederam já disseram muito daquilo que é mais importante dizer sobre este tema. A mais importante conclusão dessas intervenções parece-me a de ser indispensável a contribuição dum entendido na matéria científica do texto a traduzir. Para traduções científicas exigentes não basta, muitas vezes, um tradutor com uma formação meramente linguística. Nas minhas intervenções sobre a tradução científica em ocasiões anteriores, procurei defender as razões pelas quais a tradução de livros sobre Ciência e Engenharia deve ser confiada a professores universitários ou investigadores na respectiva área, tal como tem sido o caso em muitas traduções para português, a exemplo do que tem sido feito no plano de edições da Fundação Calouste Gulbenkian desde a década de 1960 e imitado por outras editoras. Muitas dessas traduções receberam o Prémio de Tradução Científica da União Latina e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

A forma como o tema já foi tratado nas intervenções anteriores permite-me focar agora o aspecto particular da criação de terminologia científica na língua portuguesa. Sempre que se verifique que, para um determinado termo científico ou técnico estrangeiro, não existe nenhum termo em português, o tradutor tem de assumir a grave responsabilidade de criar um neologismo.

A criação de neologismos é actualmente muito frequente, não só pela profusão das palavras inglesas associadas a progressos científicos e técnicos recentes, mas também devido à influência do inglês na literatura, nas artes, na propaganda de produtos comerciais  e em imensos aspectos do nosso dia-a-dia. A criação de neologismos é feita por pessoas do mais diverso tipo de formação, pertencentes aos mais diversos sectores de actividade e estratos sociais. Muitas vezes esses neologismos, embora mal formados, enraízam-se rapidamente e já não podem ser corrigidos. São os casos que escandalizaram muitos comentadores do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea publicado pela Academia das Ciências de Lisboa [1].  Sem querer juntar mais achas à fogueira desta polémica, permito-me, no entanto, manifestar a minha opinião: Numa tradução científica feita por um professor ou investigador universitário, a criação dum neologismo através da adaptação de termos ingleses à língua portuguesa deve ser feita de maneira a reflectir um mínimo de erudição e de conhecimento da etimologia de termos semelhantes derivados no passado do latim ou grego clássicos. Infelizmente muitos professores e investigadores das diversas áreas da ciência e engenharia não têm uma formação linguística suficiente para desempenharem bem esta tarefa.

No entanto, houve uma série de cientistas portugueses, desde há dois séculos, que a desempenharam duma forma brilhante, mas que estão injustamente esquecidos. Vou dar alguns exemplos, e peço desculpa de estes se cingirem à área da Química, por ser aquela em que tenho mais experiência.

 

2. Exemplos históricos em nomenclatura química

Na nomenclatura química, estabelecem-se regras que permitem construir de uma forma sistemática nomes para quaisquer substâncias químicas a partir do conhecimento da sua estrutura molecular. Como já se conhecem perto de vinte milhões de substâncias (sem contar com as chamadas biossequências que adicionam mais quarenta milhões a este número), essas regras têm consequências muito vastas sobre a introdução de palavras novas nas línguas de todo o mundo.

 

2.1 Vicente Coelho de Seabra

As primeiras regras de nomenclatura química sistemática foram criadas por Guyton de Morveau, Lavoisier, Fourcroy e Berthollet em francês, em 1787, e foram quase imediatamente traduzidas para inglês e alemão em 1788, para italiano em 1790 e para dinamarquês em 1794. Em 1801, Vicente Coelho de Seabra Silva Telles (1764 – 1804) [2], lente da Universidade de Coimbra e Sócio da Real Academia das Sciencias de Lisboa, publica uma tradução portuguesa [3] (vd. Figs. 1 a 4). Na "Introducção" (Fig. 2), enuncia alguns princípios, que mantêm toda a actualidade e deviam servir ainda hoje de linha de rumo para adaptação de termos estrangeiros à língua portuguesa: "Os Portuguezes tem igualmente abraçado esta nova linguagem convencidos, como outras Nações, da sua bondade; mas tem havido muita irregularidade na adopção. Huns tem seguido a etymologia e desinencia Franceza, e outros a Latina, e outros indistinctamente adoptão huma, ou outra desinencia, de maneira que não se observa por esta causa nos escritos portuguezes a regularidade, uniformidade, e exactidão necessarias nesta materia; e por conseguinte, se não procurarmos fixar e estabelecer uma adopção daquella nomenclatura, por hum modo regular, e uniforme, ella perderá a sua elegancia, e belleza, e será monstruosa, escura, e inutil para o seu fim."

 
Fig. 1. Frontispício da obra citada [2] de Vicente Coelho de Seabra

 
Fig. 2.  Página I da obra citada [2] de Vicente Coelho de Seabra

Vicente Coelho de Seabra identificou certeiramente o problema das desinências, que ainda hoje é debatido e cuja solução errada conduz por vezes a aberrações monstruosas, que mais adiante se exemplificarão.

Na página 18 da tradução propriamente dita, reproduzida na Fig. 2 a título de exemplo, citam-se, na coluna da esquerda, por ordem alfabética as traduções portuguesas dos nomes franceses antigos, figurando na coluna da direita as traduções dos respectivos nomes novos. Grande parte dos nomes novos ainda hoje se usa em português, embora nalguns casos com ligeiras diferenças.

 
Fig. 3. Página 18 da obra citada [2] de Vicente Coelho de Seabra

Na tradução duma segunda lista, em que no original francês aparecem na coluna da esquerda os nomes novos por ordem alfabética e os nomes antigos na coluna da direita, Vicente Coelho de Seabra acrescenta a cada tradução dum nome novo para português os respectivos nomes em francês e em latim (vd. exemplificação na página 125, reproduzida na Fig. 4). Criou assim, para os seus contemporâneos, um glossário trilingue.

 
Fig. 4.  Página 115 da obra citada [2] de Vicente Coelho de Seabra

 

 2.2 A. J.  Ferreira da Silva

Após um longo interregno na publicação de trabalhos sobre nomenclatura química portuguesa, em 1905, A. J. Ferreira da Silva (1853 – 1923) [4], lente da Academia Polytechnica do Porto e Sócio da Real Academia das Sciencias de Lisboa, inicia a publicação duma série de notas na Revista de Chimica Pura e Applicada [5] sobre nomenclatura química portuguesa (vd. Fig. 5).

 
Fig.5. Introdução e excertos da obra citada [5] de Ferreira da Silva

Menciona na introdução que o Conselheiro Achilles Machado (Lente de Chimica na Escola Polytechnica de Lisboa e Sócio da Real Academia das Sciencias de Lisboa) tinha proposto encarregar uma comissão do estudo desse problema. Não há notícia de conclusões a que uma tal comissão teria chegado, mas existe a notável contribuição de Ferreira da Silva (vd. reprodução de excertos na Fig. 5).

Nas suas notas, que se destinavam a ser apreciadas por uma comissão, Ferreira da Silva expõe duma forma exemplar quais tinham sido os nomes utilizados até àquela data por diversos autores, explica a etimologia das palavras e faz propostas, escolhendo entre várias alternativas aquela ou aquelas que lhe parecem preferíveis, justificando as suas opções.

Muitas das suas propostas foram adoptadas pela maioria dos autores de língua portuguesa, pelo menos em Portugal (mas nem sempre no Brasil). Os tradutores actuais podem tomar estas notas como uma linha de rumo válida para o método a seguir na adaptação de termos estrangeiros à língua portuguesa.

 

2.3 Adolpho Coelho

Num seminário frequentado por tradutores, pode parecer redundante explicar que Adolpho Coelho (1847 –1919) foi o introdutor da filologia científica em Portugal e autor do primeiro dicionário etimológico da língua portuguesa [6].

Adolpho Coelho foi consultado por um professor de Química do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, A. Cardoso Pereira (1865 – 1940) [7], mais tarde também professor do Instituto Superior Técnico, acerca da melhor forma de adaptar à língua portuguesa o termo inglês ‘ion’ criado por Michael Faraday em 1834. Adolpho Coelho emitiu um parecer que não hesito em designar por espantoso.

Cardoso Pereira pediu autorização para publicar a carta de resposta de Adolpho Coelho na Revista Portugueza de Chimica Pura e Applicada [8] (vd. Figs. 6 – 9). O parecer, que se reproduz nas Figs. 7 a 9, é uma obra magistral que manifesta um conhecimento profundo da etimologia e que convence não só pela erudição, mas também pela clareza e a força da lógica. Para o leitor de hoje, a conclusão é surpreendente: Enquanto hoje se usa em Portugal o termo ‘ião’ e no Brasil ‘íon’, Adolpho Coelho conclui que se devia dizer ‘ionte’. O facto de o parecer ter sido publicado numa altura em que os químicos portugueses já se tinham habituado a usar ‘ião’ e numa revista, que no Brasil não tinha muitos leitores, fez com que o parecer não tenha produzido efeitos e tenha caído rapidamente no esquecimento. Assim se perdeu uma oportunidade para contribuir, usando as palavras de Vicente Coelho de Seabra, para a "belleza e elegância" da língua portuguesa.

No entanto, o parecer não deixa de ser exemplar. A sua leitura recomenda-se a todos os tradutores que tenham de criar ou aprovar neologismos no português científico e técnico.

O critério usado por Adolpho Coelho de procurar o étimo mais remoto, que é o grego, para adaptar um termo criado em inglês à língua portuguesa, em lugar de usar o termo inglês como étimo mais próximo é a opção mais erudita das duas possíveis e aquela que se recomenda.

A falta de respeito por este critério pode conduzir a autênticas monstruosidades, como se demonstrará mais adiante.


Fig. 6. Frontispício da Revista Portugueza de Chimica Pura e Applicada

 


Fig. 7. Página 201 da obra citada [8] de Adolpho Coelho

 


Fig. 8. Página 202 da obra citada [8] de Adolpho Coelho

 


Fig. 9 .Página 203 da obra citada [8] de Adolpho Coelho

 

2.4 Rómulo de Carvalho

Rómulo de Carvalho (1906  - 1997) [9],  de cujo nascimento se comemora este ano o centenário, também reflectiu sobre os problemas da tradução de nomenclatura química para português. Não admira que o tenha feito com o desvelo e a sensibilidade digna dum António Gedeão. Em 1950, publicou uma tradução de regras de nomenclatura química [10] (vd. Figs. 10 e 11).

 
Fig. 10. Frontispício da obra citada [10] de Rómulo de Carvalho

 

 
Fig. 11. Página 5 da obra citada [10] de Rómulo de Carvalho

Infelizmente, esta tradução não  teve a repercussão que teria sido desejável devido a várias circunstâncias (além da tiragem e distribuição limitadas): Rómulo de Carvalho, alheio a qualquer responsabilidade nesta matéria, teve uma premonição do que ia acontecer, quando, no seu Prefácio (vd. Fig. 11) alude ao carácter provisório e efémero das convenções entre cientistas sobre terminologia. A História trágica do século XX também contribuiu para a fragilidade dos documentos que traduziu: "penosamente erguidos" através da colaboração e discussão entre químicos das várias nações. As duas Guerras Mundiais e as suas sequelas foram muito prejudiciais às permutas livres entre cientistas, particularmente entre os pertencentes às nações vencedoras e às vencidas e entre os perseguidos políticos e étnicos e os seus perseguidores [11]. Esses conflitos sobrepunham-se aos inerentes à própria ciência, entre químicos pertencentes a várias subdisciplinas e envolvidos em actividades diversas. A mudança da língua oficial da União Internacional de Química Pura e Aplicada de francês para inglês, após a 2ª Guerra Mundial, também ajudou a criar confusões [12]. Enquanto que Rómulo de Carvalho ainda traduziu do francês para português, a partir daí passou-se a traduzir originais ingleses. Os brasileiros, aliás já desde há bastante mais tempo traduziam de preferência obras inglesas. As gerações mais recentes, ao traduzirem textos ingleses, desconheciam, na sua maioria, a tradução de Rómulo de Carvalho. Assim, surgiram novos sinónimos, muitos deles sem necessidade. A tradução de Rómulo de Carvalho e, em particular, o seu prefácio não deixam, no entanto, de ser um exemplo a seguir, quer pela atitude perante o problema da adaptação de termos estrangeiros à língua portuguesa, quer pelo método que adoptou. Também merece ser assinalada como positiva a manifestação de humildade em recorrer à revisão filológica da tradução por José Inês Louro. Esse exemplo devia ser uma norma, mas não tem sido imitado.

 

3. Desenvolvimentos recentes

A partir da década de 1950, o predomínio da língua inglesa como veículo internacional da comunicação em Ciência e a sua adopção como língua oficial única pela IUPAC (International Union of Pure and Applied Chemistry), bem como a preferência da Grã-Bretanha pelos bolseiros portugueses de doutoramento teve como resultado que a grande maioria das traduções portuguesas de textos científicos, normas de terminologia e nomenclatura químicas se fizesse a partir do inglês. A estabilização daí resultante foi reforçada pelo carácter mais definitivo das normas de terminologia e das regras de nomenclatura internacionais. A Guerra Fria não teve, nem de longe, os efeitos prejudiciais sobre a solidariedade e comunicação internacional entre cientistas que tiveram as duas Guerras Mundiais. Na Química, já se traduziram para português certas regras de nomenclatura da IUPAC [13] e estão a ser preparadas outras traduções de obras sobre nomenclatura e terminologia da mesma organização, promovidas pela Sociedade Portuguesa de Química.

No entanto, a estabilidade tem o seu preço: Como a maioria dos químicos portugueses apenas domina bem o português e o inglês, a qualidade das adaptações de termos ingleses ressente-se do desconhecimento do latim, do grego e de línguas românicas modernas, além do português.

A língua dos originais da maioria dos textos didácticos universitários traduzidos para português tem sido, nas últimas décadas, o inglês. Com o desenvolvimento das organizações comunitárias europeias começaram, no entanto, a surgir glossários multilingues, como, por exemplo, o EINECS, European Inventory of Existing Commercial Substances com cerca de 60 000 nomes sistemáticos e 60 000 nomes comuns. Este inventário serve de base para a elaboração das pautas aduaneiras europeias, das classificações da sua perigosidade para o ambiente, etc. Estes glossários, embora não estejam isentos de erros, são periodicamente revistos e actualizados. Tornaram-se assim instrumentos úteis na tradução de textos científicos.

 
Fig. 12. Frontispício da tradução citada [13]. Note-se que a paginação é a mesma que no original inglês, pelo que tanto o índice alfabético inglês, como o português remetem para a página em que o termo ocorre no original inglês, bem como na tradução portuguesa.

 

4. Critérios na adaptação de termos estrangeiros

Da história da terminologia química em Portugal e do exame crítico das traduções mais importantes existentes, pode concluir-se que, em geral, as traduções feitas por professores ou investigadores universitários têm boa qualidade. Várias foram premiadas pela União Latina e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

No entanto, há divergências entre vários tradutores quanto à forma de adaptar os termos estrangeiros, particularmente os ingleses à língua portuguesa. Enquanto se traduziam sobretudo originais franceses, a adaptação era mais fácil, porque tudo se passava entre duas línguas, ambas de raiz latina. Isso não impediu que numa antiga pauta aduaneira, se tivesse traduzido, por exemplo, ‘pétrole lampant’ (petróleo de iluminação) por ‘petróleo lampante’. Monstruosidades deste género eram frequentes, mas também eram facilmente identificadas e ridicularizadas, de forma a serem eliminadas pouco a pouco quase automaticamente. Quando se trata do inglês, hoje dominante, aparecem com maior frequência adaptações mal feitas que, infelizmente muitas vezes, não são identificadas com a mesma facilidade e cujo uso se propaga, sem que as pessoas que usam esses termos se apercebam desse facto.

Sugiro por isso que, ao serem adaptados termos estrangeiros à língua portuguesa, o tradutor passe a usar os seguintes quatro crivos:

 

4.1 Evitar a criação de sinónimos desnecessários

Quando já existe em português um termo que constitui uma tradução correcta e sem ambiguidades, não se deve introduzir um novo sinónimo.

Como exemplos de má prática pode citar-se a criação do neologismo ‘acididade’, quando já existia o substantivo sinónimo  ‘acidez’. Suponho que a criação deste neologismo foi devida a se ter traduzido o termo inglês ‘acidity’ de forma a que a tradução portuguesa fosse o mais semelhante possível ao termo inglês. Um outro exemplo é a criação dos neologismos ‘hidrofílico’ e ‘hidrofilicidade’, quando já existiam os sinónimos ‘hidrófilo’ e ‘hidrofilia’. Aqui, é natural supor que a razão destes neologismos desnecessários e pouco recomendáveis resulta dos termos ingleses correspondentes serem respectivamente ‘hydrophilic’ e ‘hydrophilicity’. A quase homofonia de ‘–filicidade e ‘-felicidade’ tornam estes exemplos particularmente ridículos. Não é difícil encontrar outros exemplos nas traduções de livros sobre Química e domínios afins.

Acontece, no entanto, que em determinadas épocas são criados em idiomas estrangeiros termos que, embora sinónimos de termos anteriormente existentes nas mesmas línguas, se destinam a tornar mais sistemáticas as terminologias e nomenclaturas duma dada área científica.  Por exemplo, a substituição do termo "disymmetric" por "chiral" (do grego ‘ceir’, mão) na estereoquímica foi acompanhado, e bem, da criação do neologismo ‘quiral’ em português, embora já existisse o termo sinónimo ‘dissimétrico’.

Um outro exemplo foi a criação dos termos ‘haleto’ e ‘sulfeto’, quando já existiam em português as designações ‘halogeneto’ e ‘sulfureto’ (esta última é das tais que foram estabelecidas por Vicente Coelho Seabra, vd. Fig.4). O aparecimento destes neologismos supérfluos explicam-se pelo facto de  o latim e o francês terem passado sucessivamente para segundo plano como veículos do conhecimento científico perante a língua inglesa. Enquanto se traduziu ‘halogénure’ do francês, era natural aparecer em português ‘halogeneto’. A analogia no modo de derivar uma série de nomes: ‘fluoreto’ de ‘flúor’, ‘cloreto’ de ‘cloro’, ‘brometo’ de ‘bromo’, ‘iodeto’ de ‘iodo’ impunha que de ‘halogénio’ resultasse ‘halogeneto’. Quando se começou a traduzir do inglês ‘halide’, surgiu o sinónimo redundante ‘haleto’. ‘Sulfureto’ foi adoptado por Vicente Coelho Seabra a partir do termo latino ‘sulfuretum’ anterior à própria nomenclatura de Guyton de Morveau, Lavoisier, Fourcroy e Berthollet. Só depois da 2ª Guerra Mundial é que apareceu em português o sinónimo redundante ‘sulfeto’, resultante da adaptação da designação inglesa ‘sulfide’ ou ‘sulphide’. O fenómeno deu-se inicialmente no Brasil e seguido com algum atraso em Portugal, embora aqui a adesão tenha sido menor.

 

4.2 Respeitar os modos eruditos tradicionais da etimologia para derivar termos do grego e latim clássicos.

O adjectivo ‘hidrófilo’, significa amigo da água, vindo o antepositivo ‘hidro-’ do grego ‘udwr’ que significa água e o pospositivo ‘-filo’ do grego ‘rilo’, que significa ‘amigo’. Há imensas palavras portuguesas em que aquele antepositivo e este pospositivo aparecem. O pospositivo ‘-filo’ aparece por exemplo em ‘anglófilo’, ‘columbófilo’, ‘francófilo’, ‘germanófilo’, ‘pedófilo’, etc., que podem ser usados como adjectivos ou como substantivos. Os substantivos que designam a respectiva qualidade ou condição são ‘anglofilia’, ‘columbofilia’, ‘francofilia’, ‘germanofilia’, ‘pedofilia’, etc. Os respectivos vocábulos ingleses têm os mesmos étimos gregos que os portugueses e terminam com o pospositivo ‘-philic’ e ‘-philicity’ respectivamente. Não passa, no entanto pela cabeça de ninguém usar monstruosidades ridículas como ‘pedofílico’ e ‘pedofilicidade’. Lamentavelmente, há, como já se mencionou mais acima, quem adapte os termos ingleses ‘hydrophilic’ e ‘hydrophilicity’ à língua portuguesa como ‘hidrofílico’ e ‘hidrofilicidade’ em lugar de ‘hidrófilo’ e ‘hidrofilia’. Ao adaptarem os termos ingleses ‘electrophilic’, ‘electrophilicity’, ‘nucleophilic’ e ‘nucleophilicity’ à língua portuguesa, infelizmente nem todos optaram por ‘electrófilo’, ‘electrofilia’, ‘nucleófilo’ e ‘nucleofilia’, tendo aparecido os termos ‘electrofílico’, ‘electrofilicidade’, ‘nucleofílico’ e ‘nucleofilicidade’. Na minha opinião, estes últimos termos não devem ser usados. No entanto, já aparecem em dicionários, pelo que estas recomendações possivelmente já vêm demasiado tarde.

Em regra, quando se é forçado a criar um neologismo, devia preferir-se o modo de derivar termos eruditos em português do grego e latim análogo ao modo como isso foi praticado desde há séculos. Recomenda-se por isso que, antes de adaptar um termo inglês, se verifique em dicionários quais são os étimos gregos ou latinos desse termo inglês. Seguidamente devia derivar-se a adaptação portuguesa duma forma análoga à que foi usada em relação a termos que já fazem parte do vocabulário português. Foi esse o critério recomendado por Adolpho Coelho.

 

4.3 Adoptar critérios coerentes para desinências e géneros

Os exemplos já citados bastam para demonstrar a necessidade de coerência no modo de adaptar os termos estrangeiros.

Quanto às desinências, há um exemplo que demonstra bem as dificuldades  em adoptar critérios coerentes: A desinência ‘-ide’ em inglês pode ser adaptada de várias maneiras. Se se tratar do nome dum anião, em francês a desinência correspondente é ‘-ure’ e em português ‘-eto’, como por exemplo em ‘chloride’  (ingl.), ‘chlorure’ (franc.) e ‘cloreto’ (port.), derivados do nome do elemento cloro, derivado por sua vez da designação em grego da cor verde. No entanto há excepções, como, por exemplo, na tradução de ‘oxide’( ingl.) ou ‘oxyde’ (franc.) ou ‘Oxyd’ (alem.), que, em português, é ‘óxido’ desde os tempos de Vicente Coelho Seabra, sem nunca se ter chamado ‘oxeto’, embora se trate de oxigénio com carga negativa.  Há, no entanto casos em que a decisão é mais difícil, como por exemplo na tradução do nome ‘ozonide’(ingl. e franc.), para o qual se encontram, em português, as seguintes traduções conforme os autores: ‘ozoneto’, ‘ozonido’, ‘ozónido’ ou ‘ozonídeo’. ‘Ozoneto’ seria coerente com a maioria dos nomes análogos, mas quase ninguém usa; ‘ozónido’ tem a vantagem de ser coerente com ‘óxido’, uma vez que os ozónidos também são compostos com uma forma do oxigénio (ozono ou ‘trioxigénio’). ‘Ozonídeo’  é desaconselhável por a desinência ‘-ídeo’ ter normalmente o significado de ‘semelhante a’, o que não é o caso, por os ozónidos  não terem nenhuma semelhança com o ozono, embora resultem da reacção deste com alcenos. Daí conclui-se que a coerência às vezes não é um critério suficiente para resolver um problema. Outros critérios terão que ser usados para além deste.

Quanto ao género, seria desejável que se mantivesse o género que um dado  substantivo tinha na língua da qual foi adaptado. Quando o género é neutro, em português  devia ser masculino. Este critério, infelizmente, não tem sido utilizado coerentemente, como mostram os seguintes exemplos:

O termo ‘enzima’ vem do grego ‘en-’, ‘dentro’, mais ‘-zumh’, ‘fermento, levedura’. O fisiólogo F. W. Kühne foi quem cunhou em alemão o substantivo neutro ‘Enzym’ em 1876, que foi traduzido para inglês ‘enzyme’ mantendo o mesmo género neutro. Em português devia ser portanto ‘o enzima’. Muitos autores usam de facto o género masculino, mas outros optaram pelo género feminino ‘a enzima’. Para isso pode ter contribuído o facto de em francês o termo ter sido adoptado com o género feminino. O termo francês deve presumivelmente ter funcionado como étimo mais próximo para os que optaram pelo género feminino em português. Curiosamente, o Dicionário de Houaiss ignora o uso do género masculino. A edição portuguesa, bem como o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia, devia ter atendido ao facto de na variante europeia do português coexistirem os dois géneros, o que aparentemente não é o caso na variante brasileira.

O termo ‘orbital’, significando distribuição de probabilidade de um electrão num átomo (e que portanto não é um sinónimo de órbita) foi criado pelo físico R. S. Mulliken em 1932 [14] em inglês com o género neutro. Em alemão, francês, espanhol e italiano, bem como em muitas outras línguas, o termo foi adoptado literalmente. Em alemão, tem também o género neutro, mas nas restantes línguas citadas (todas elas românicas) é do género masculino. Em português, também devia ser do género masculino. De facto, no Brasil, todos os autores usam, como é correcto, o género masculino. Em Portugal, alguns usam o género masculino, mas outros, sem razão séria aparente, usam o género feminino.

Além destes exemplos, há muitos outros em que se manifesta uma falta de coerência na atribuição do género de vocábulos adaptados de línguas estrangeiras em que existe o género neutro (por exemplo, grego, latim e alemão). Seria desejável que se respeitasse a regra de os adaptar à língua portuguesa no género masculino.

 

4.4 Procurar consensos entre utilizadores destacados

Todo o trabalho em prol da criação de adaptações ao português segundo os melhores critérios, pode ser em vão se, seguidamente, não houver a adesão de outros autores que redigem ou traduzem na mesma área científica. Por isso, quando se publicou recentemente uma tradução portuguesa de regras de nomenclatura [15], procedeu-se a uma consulta prévia de numerosos colegas da mesma área científica. Os resultados das suas observações ou foram utilizados para corrigir ou melhorar a tradução ou, no caso de haver divergências, estas foram relatadas num prefácio, em que se justificava a razão de cada opção por uma de diversas alternativas. Na prática, verificou-se, porém, que quase só havia divergências insanáveis entre autores brasileiros e portugueses. Nestes casos, preferiu-se apresentar as duas variantes, a europeia e a brasileira.

 

Agradecimentos

Agradeço os contributos da Prof. Doutora Amélia Pilar Rauter da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do Engenheiro Carlos Matos da Direcção-Geral de Tradução da Comissão Europeia para a discussão e revisão do presente texto.

 

[1] Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, Lisboa 2001.

[2] António Amorim da Costa, Vicente Coelho de Seabra Silva Telles (c. 1764 – 1804), biografia acessível em http://www.spq.pt/

[3] V. Coelho de Seabra S.  Telles, Nomenclatura Chimica Portugueza, Franceza e Latina, a que se ajunta o Systema de Characteres Chimicos adaptados a esta Nomenclatura por Haffenfratz e Adet, Typographia Chalcographica, Typoplastica e Litteraria do Arco do Cego, Lisboa 1801. (125 pg.)

[4] João L.L.C. Oliveira Cabral, História da Análise Química no Porto, in A. Vasconcelos Marques (coord.), História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Vol I, pg. 435 – 453, Academia das Ciências de Lisboa, 1986.

[5] A.J. Ferreira da Silva, Nota sobre a nomenclatura portugueza dos elementos, compostos e funcções chimicas, Revista Portugueza de Chimica Pura e Applicada, 1905, 1ª série, 1, 401 – 404, 452 – 453, 501 – 502, 533 – 535, 1906, 1ª série, 2, 26 – 29, 64 – 66, 222 – 225.

[6] F. Adolpho Coelho, Diccionario Manual Etymologico da Lingua Portugueza, P. Plantier, Lisboa

[7]  Charles Lepierre, O Professor Dr. A. Cardoso Pereira, Técnica, Revista de Engenharia dos Alunos do Instituto Superior Técnico, 1941, 8, 116, 123 – 124.

[8]  F. Adolpho Coelho, Nomenclatura chimica, Revista Portugueza de Chimica Pura e Applicada, 1907, 1ª série, 3, 201 – 203.

[9] Fernando Reis, Rómulo de Carvalho (1906 – 1997), biografia acessível em http://www.instituto-camoes.pt/cvc/ciencia/p24.html

[10] R. Carvalho, Regras de Notação e Nomenclatura Químicas  -  Tradução, Prefácio e Notas de Rómulo de Carvalho; Revisão Filológica de José Inês Louro, Instituto para a Alta Cultura, Lisboa 1950.

[11]  R. Fennell, History of  IUPAC 1919 – 1987, Blackwell Science, Oxford 1994.

[12]  P. E. Verkade, A History of the Nomenclature of Organic Chemistry, Delft University Press, D. Reidel Publishing Company, Dordrecht 1985 (507 pgs).

[13] Guia IUPAC para a Nomenclatura de Compostos Orgânicos, Tradução Portuguesa nas Variantes Europeia e Brasileira, Lidel – Edições Técnicas, Lda. Lisboa 2002 (R. Panico, W. H. Powell, J.-C. Richer, A Guide to IUPAC Nomenclature of Organic Compounds Recommendations 1993, Blackwell Scientific Publications, Oxford 1993) Tradução de A. C. Fernandes, B. Herold, H. Maia, A. P. Rauter, J. A. R. Rodrigues. ISBN 972-757-150-6.

[14] R. S. Mulliken, Phys. Rev. 1932, 41, 49-71

[15] Guia IUPAC para a Nomenclatura de Compostos Orgânicos, Tradução Portuguesa nas Variantes Europeia e Brasileira, Lidel – Edições Técnicas, Lda. Lisboa 2002 (R. Panico, W. H. Powell, J.-C. Richer, A Guide to IUPAC Nomenclature of Organic Compounds Recommendations 1993, Blackwell Scientific Publications, Oxford 1993) Tradução de A. C. Fernandes, B. Herold, H. Maia, A. P. Rauter, J. A. R. Rodrigues. ISBN 972-757-150-6.

 

 

 

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