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A tradução científica e técnica é uma actividade que envolve competências muito vastas e que constitui, simultaneamente, um acto de criação e uma expressão de cultura. As competências exigidas para a tradução de uma obra científica não se restringem ao conhecimento sobre a disciplina ou a área de especialidade em causa, antes exigem uma noção exacta do contexto em que a tradução se insere e uma análise rigorosa da proximidade ou distância que separa esse contexto daquele em que a obra foi originalmente produzida.

Quando, no final da década de 70 do século passado se iniciou, em Portugal, o ensino da minha disciplina de trabalho, a psicologia social, não existiam manuais em português que servissem de apoio à preparação das aulas, para os professores, e de acompanhamento das matérias para os alunos. As primeiras traduções que surgiram, do inglês ou do francês confrontaram-se com a dolorosa experiência de ter de criar novos termos. Com efeito, os conceitos só existem nas culturas e nas línguas que já foram invadidas pelos saberes em que eles estão ancorados. A língua permanece omissa sobre os conceitos que os seus falantes desconhecem.

Mas a tradução é também uma expressão de cultura, na medida em que a forma de apropriação de um termo ou conceito por uma sociedade, reflecte as atitudes ou representações dominantes sobre esse tema naquele contexto espacial e temporal em particular. Na década de 90, quando o conceito de gender mainstreaming foi introduzido nas políticas europeias, ele assumia significados diferentes nos documentos em inglês, francês e português da Comissão Europeia, reflectindo assim os diferentes níveis da discussão e do debate público sobre a questão nesses países europeus. Um exemplo curioso da influência da cultura sobre a tradução ocorreu com o termo de feminilidade, nas primeiras traduções do livro de Simone de Beauvoir (O Segundo Sexo) que surgiram nos anos 50. No Japão por exemplo, o termo foi traduzido simplesmente por maternidade.

As novas tecnologias que hoje em dia trazem novos desafios à tradução científica e técnica não lhe retiraram a sua componente criativa, nem a privaram da influência cultural, embora lhe tenham acrescentado a exigência de novos saberes. Hoje, como antes, a actividade da tradução científica e técnica exige competência, mas também curiosidade e vontade de conhecer o mundo que nos rodeia.

 

Lígia Amâncio
Vice – Presidente
Fundação para a Ciência e a Tecnologia

 

 

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